Sabrina Noivas 26
The Widow's Mite

Um vizinho milionrio  procura de 1 esposa...Um presente cado do cu, ou no? Lucy Borden j tinha problemas demais. No precisava do agravante de ter de aturar o vizinho arrogante e impaciente, embora gostasse muito de sua filha, Maude. Lucy sabia que valentes deviam ser enfrentados de cabea erguida, sem medo. Mas tudo o que conseguiu com sua faanha foi 1 beijo longo e ardente. E, de repente, Jim Proctor j no era to mau assim. Na verdade, era encantador, apesar de 1 pouco teimoso. Estava procurando 1 esposa e 1 me para Maude... mas, na opinio de Lucy, a 1 candidata ao "cargo" de esposa que apareceu no passava de 1 caadora de fortunas. E, sendo 1 boa vizinha, sentia-se na obrigao de fazer alguma coisa...

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1995
Publio original: 1992
Gnero: Romance contemprneo
 Estado da Obra: Corrigida


NOTA DA AUTORA

Eu tive a ideia de escrever este livro anos atrs, quando li sobre a verdade do casamento de Consuelo Vanderbilt e o nono duque de Marlborough, no comeos dos Anos Dourados.
O casamento deles foi um dos maiores acontecimentos do sculo dezenove, mas acabou em divrcio depois do nascimento do segundo filho. Minha histria  sobre duas pessoas muito humanas, pessoas vulnerveis que esto verdadeiramente preocupadas com os outros. Espero que vocs gostem de ler sobre como Justin e Sunny acabam se descobrindo.



 








Capitulo I

Lucy Borden nunca mais esqueceria aquela manh de julho, quando conheceu o Mais Horrvel Homem do Mundo. Bem, primeiro conheceu sua filha.
Lucy estava sentada na escada da varanda, olhando para o vazio da estrada Ned's Point e ouvindo o som das ondas atrs da casa, pensando em seus problemas. O sol era abrasador, e a nica fonte de alvio era a brisa que vinha do mar.
Ao longo de Ned's Point alinhavam-se magnficas manses. A casa dos Borden, de arquitetura do sculo dezoito, era a nica que parecia prestes a desabar. E Lucy Borden, Lucastra, na verdade, no tinha herana ou qualquer outro meio para tentar impedir a catstrofe.
Assim, quando a criana surgiu do nada e parou na sua frente, Lucy tentou livrar-se das preocupaes e forou um sorriso.
	Ol. Meu nome  Maude  a menina apresentou-se.
No era bonita. Slida como um hidrante, com cabelos castanhos que pareciam no ver um pente h meses e sardas espalhadas por todo o rosto, vestia uma cala que j devia estar no lixo e uma camiseta que certamente viera do Exrcito da Salvao. Oito anos, talvez?
	Sou uma garota  ela explicou impaciente.
	Eu tambm  Lucy sorriu.  Veio pela praia?
	Estava caminhando.
	Maude de qu?
	O qu?
	Todas as pessoas tm um sobrenome. Voc deve ser Maude Alguma Coisa.
	Voc  engraada  ela riu.  Maude Alguma Coisa!
Meu pai  um homem muito importante. E meu nome  Maude Proctor.
	Um nome bonito. Alguma coisa a ver com sabo, se no estou enganada. Quem escolheu seu nome? Seu pai? Maude...  bem feminino.
	Ah, no sei. s vezes ele age como se no gostasse de garotas.
	Ele deve gostar de sua me.
	No tenho me. Ela morreu quando nasci.
	Ento somos muito parecidas. Minha me tambm morreu quando nasci.
A criana balanou a cabea num gesto de solidariedade e sentou-se perto dela, no degrau de baixo.
	Pais tambm so legais. Onde est o seu?  perguntou.
	Ele... no est por perto  Lucy respondeu. Seu pai havia partido para a guerra quando ainda cursava o magistrio e nunca mais voltara. E Mark, tambm... Serviam no mesmo peloto da Fora Area. Havia sido um choque perder o pai e o noivo ao mesmo tempo, mas os anos a ajudaram a superar a perda.
	Mas ele gosta de voc, e voc dele?
	Ah, sim!  Lucy sorriu.  Sempre nos amamos muito.
	Meu pai grita comigo. Francamente, acho que ele no gosta de garotas.
	Se seu pai no gosta de meninas, deve ser muito estpido  julgou, imaginando de quem poderia tratar-se. Proctor?  Seu pai  um homem estpido?
	Meu pai?  a pequena repetiu espantada, como se a ideia jamais houvesse lhe passado pela cabea.  Ele  o homem mais inteligente do mundo! E aposto que voc tambm  esperta.
No, acho que no. Uma professora no consegue ganhar muito dinheiro, sabe? Se no conseguir encontrar um emprego para as frias de vero, estarei bem encrencada.
	Oh, mas voc  bonita  Maude afirmou com tom srio, como se esse fosse o nico requisito necessrio para o sucesso de uma mulher.
E agora, Lucy Borden? O que vai dizer? Um metro e sessenta de altura, cinquenta e oito quilos, rolia, mas com todas as curvas nos lugares certos, olhos verdes e cabelos castanhos claros... Por que depreciar-se?
	Obrigada. Infelizmente, beleza  algo que no dura eternamente. Tenho vinte e oito anos, sabe?
	Uau! Voc  bem velha!  Maude concordou com ar solene.  Mas ele  ainda mais velho.
Lucy gostaria de saber a quem ela referia-se, mas conteve a curiosidade.
	Mora por aqui?
	AH  a pequena apontou na direo da praia, onde uma linda manso erguia-se no centro de um imenso terreno retangular.
A casa era objeto da curiosidade de Lucy h anos, mas jamais tivera a oportunidade de conhec-la por dentro.  No vero, esse lugar  incrivelmente solitrio. Talvez...
	Pode vir me visitar sempre que quiser. No estou trabalhando. Quer alguns biscoitos e um copo de limonada?
	No tenho permisso para comer entre as refeies  ela explicou, fitando-a como se esperasse que desrespeitasse a norma.
Essa regra no se aplica s quintas-feiras  Lucy sorriu. 
A criana afirmou com a cabea num gesto entusiasmado, mesmo sabendo que era tera-feira.
	Espere aqui enquanto vou buscar o lanche.
Lucy havia subido os trs degraus da varanda quando o som de um carro a deteve. Um brilhante Cadillac percorria a Ned's Point em velocidade espantosa, mas, ao passar por sua casa, o motorista acionou o freio e invadiu sua propriedade como se estivesse conduzindo uma diligncia policial.
Maude levantou-se e cobriu a boca com uma das mos. O automvel parou e finalmente ele desceu.
Um homem grande, forte e robusto, como sua filha, mas sem um nico grama de gordura no corpo impressionante. Devia ter mais de um metro e oitenta, e uma linha profunda entre os olhos demonstrava o quanto estava aborrecido. Era como deparar-se com Thor disfarado num temo, prestes a lanar alguns raios sobre os mortais.
	Que diabos est fazendo com minha filha?
	No admito gritos em minha propriedade!  Lucy reagiu furiosa. Quem  voc?
	Sou o pai de Maude  ele rosnou.
	E como posso ter certeza disso? Pode ser um seqiiestrador, um bandido perigoso... Nenhuma garota que se preze tem um pai como voc! Maude?
A pequena abaixou a cabea para esconder a lgrima que corria por seu rosto.
	Ele  meu pai, mas no tenho culpa  sussurrou. 
Emocionada, Lucy passou um brao por seus ombros.
	No, querida. Voc no tem culpa. Infelizmente, no podemos escolher nossos pais.
	Muito obrigado  o recm-chegado interferiu com sarcasmo.  Maude, entre no carro.
	Posso v-la outra vez?
	Quando quiser  Lucy sorriu.
	Isso  o que voc diz  o desconhecido indicou, esperando que a filha entrasse no automvel para fechar a porta e aproximar-se da escada.  Escute aqui...
Apesar do temor, Lucy cerrou os punhos e preparou-se para enfrent-lo, mesmo que fosse fisicamente. Mas, ao encar-lo, viu que os olhos negros estavam fixos na casa. O ar de reprovao foi o bastante para incendi-la.
	Qual  o problema? Nunca viu uma casa? Ns, os Borden, estamos nesta regio h dois sculos. No somos um bando de imigrantes atrevidos!  mentiu. Era descendente dos Chase, passageiros do famoso navio Mayflower que trouxera os primeiros imigrantes do velho continente.
De qualquer forma, o comentrio serviu para atingi-lo como desejava. Vermelho, o desconhecido aproximou-se e encarou-a com ar de ironia.
Mais uma ianque da Nova Inglaterra. Sua casa parece ter mil anos de idade. Mais um vento forte, e ela se transformar numa pilha de entulho. Com tanto tempo e dinheiro, no acha que seus ancestrais podiam ter ao menos pintado esse lugar? So barracos como esse que desvalorizam nossas propriedades.
Barraco? Lucastra Borden sentiu o sangue fervendo nas veias e no pde mais conter-se. Fechando os olhos, ergueu a mo e lanou-a na direo de seu rosto, mas foi contida pouco antes de atingi-lo.
	Est me machucando  reclamou indignada, sentindo os dedos que apertavam seu pulso.
	Voc merece.
	Papai!  Maude gritou do carro.
	Gostaria de ser maior, seu... seu...
	Se voc maior, eu j teria retribudo a tentativa de agresso. Mas como  pequena e insignificante... - e segurou-a pelos ombros, beijando como se, assim, pudesse puni-la pelo atrevimento de t-lo enfrentado. Maude gritou novamente e ele afastou-se. Espero que isso tenha servido de lio. Deixe minha filha em paz, ouviu bem? Voc no  to ruim quanto parece, mas sua gerao  simplesmente insuportvel  e partiu sem olhar para trs.
	Volte quando quiser  Lucy gritou para Maude, recusando-se a deix-lo vencer o impasse. Gostaria de dizer algo mais contundente, mas no podia gritar palavres diante de uma criana, e por isso limitou-se a resmung-los.
Enquanto ligava o motor, o sujeito comeou um sermo sobre os perigos de se aproximar de estranhos.
	O que aconteceu?  perguntou ao pisar no acelerador.
	Do que est falando?  Maude perguntou.
	No me venha com esse ar de inocente. Onde esto os homens que contratei para cuidar da casa enquanto estou trabalhando?
	Ah, eles?
	Sim, eles!
	No sei. Devem estar na cozinha, comendo  e silenciou, preparando-se para a reao do pai. J o conhecia o suficiente para saber que conseguira irrit-lo.
	No me desafie, Maude. Sabe muito bem que samos Boston para fugir daquela horrvel onda de sequestros. Duas crianas de sua antiga escola foram raptadas. Por que acha que a fazemos andar por a vestida como uma mendiga, mesmo aqui em Mattapoisett?
.	Desculpe, papai. Eu... esqueci. Estava entediada. Aqueles homens s sabem comer e conversar com a sra. Winters! No devia contratar uma cozinheira to boa. Fui dar um passeio na praia, e Lucy estava sentada em sua varanda, sozinha... Ela  uma boa mulher.
	Talvez seja, mas at termos certeza, no quero que corra riscos desnecessrios.
	E ela  bonita, tambm.
	Talvez. Mas beleza no  to importante.
	Ah, por favor! Por que vive repetindo esses... como se chama?
	Clichs.
	Isso. Gosto dela.  divertida, diz coisas engraadas. E ela gosta de mim!
	Isso  o que voc diz  ele resmungou, parando o automvel diante da porta da propriedade.  Entre de uma vez, ou...
	Ou o cu vai desabar?
	Ou o cu vai desabar.
Maude encarou-o com o queixo erguido, mas no pde mais conter-se e explodiu em gargalhadas, atirando-se nos braos do pai.
E ento ele entrou no carro e partiu  Lucy concluiu a histria. Havia contado tudo, menos a parte do beijo.
A anci balanou a cabea sobre o travesseiro e suspirou.
Nas tardes de quinta-feira, Lucy ia ao Asilo Merit para visitar Angela Moore, ou Angie, como era conhecida na regio. Aos noventa anos, Angie era a ltima representante viva da famlia, e tambm vivera em Point at dois anos antes, quando cara da escada e fraturara a bacia.
Como em muitas outras famlias ianques, os diversos ramos colaterais dos Moore haviam sido dominados pelos homens que, determinados, acumularam fortunas com seu trabalho. Mas, gradualmente, os homens foram morrendo e restaram apenas as mulheres para herdar o dinheiro que haviam juntado. Angie Moore era a ltima dessas herdeiras, e a cidade inteira sabia que sua riqueza era imensa.
O que a cidade no sabia, mas Lucy julgava saber, era que ela sempre tivera uma irresistvel paixo por cavalos, em cujas patas apostara cada centavo do que um dia possura. Angie e Lucy eram amigas, e haviam alcanado uma cumplicidade que superava o abismo criado pela diferena de idade. Os segredos entre elas eram inexistentes. Ou quase...
	Esse sujeito deve ser rude  Angie comentou, lambendo a colher de sorvete.  Acha que pode me trazer torta de lagosta na semana que vem, querida? No suporto a comida deste lugar.
	Posso trazer tudo o que desejar, Angie. Mas a ltima torta de lagosta arruinou seu estmago, lembra-se?
	E da? Estava deliciosa. Voc disse Proctor?
	Foi o nome com que a menina se apresentou.
	E moram na praia, perto de sua casa?
	Bem ao lado, para ser mais exata.
	J ouvi esse nome em algum lugar.  uma famlia de destaque, mas no consigo localizar o ramo de negcios. Dinheiro, talvez... Vou acabar lembrando. Ele  parecido com algum?
	Est falando de Mark?
	Exatamente.
	Ah, no! mark era quieto, doce, e esse sujeito  musculoso, imponente e... No.  impossvel compar-los.
	Por qu? Todos eles usam calas.
	No quero falar sobre isso, Angie. Ainda no esqueci completamente...
	Desculpe, querida.
A enfermeira do andar entrou no quarto para avisar que o horrio de visitas havia chegado ao fim. Lucy aproximou-se para beijar o rosto doce da amiga e despedir-se.
	Sabe de uma coisa, minha querida?  Angie anunciou antes da enfermeira partir.  Voc  to boa comigo, que vou lhe deixar dois milhes de dlares em testamento.
As duas riram. Sabiam que a velha senhora no tinha um nico centavo em seu nome.
Quando passou pelo balco da recepo, Lucy surpreendeu-se com o comentrio da enfermeira.
	Voc  uma mulher de sorte. Dois milhes de dlares!
	 verdade  sorriu, fingindo dividir um segredo.  Mas no deixe que a notcia se espalhe pela cidade. Os credores no me deixariam em paz.
Rindo, deixou o asilo e caminhou pela Barstow Street, a cabea repleta de preocupaes. Desempregada, e sem nenhuma perspectiva para o futuro prximo.
 Droga! Devo ter algum talento  resmungou, sem dar ateno aos olhares curiosos dos outros pedestres.  Gosto de lidar com pessoas. E gosto ainda mais de crianas. Talvez...  e Lucastra Borden teve uma ideia brilhante.  Crianas!  gritou, atraindo a ateno de todas as pessoas que aguardavam para atravessar a Water Street. Morava na praia e tinha o certificado do curso de natao que fizera na Cruz Vermelha antes de atuar como salva-vidas durante os trs anos do curso de magistrio.  Vou limpar a praia e organizar o Clube dos Pequenos Nadadores!
Ao entrar na Main Street, onde estacionara o cairo, Lucy sentia-se radiante como o sol que brilhava no cu azul. Cantarolando, dirigiu pela Water Street at o entroncamento com a estrada Ned's Point, de onde podia ver o porto, o mar, as manses... e sua casa.
Com um suspiro desanimado, passou pelo porto e foi guardar o carro na garagem.
Felizmente ainda tinha a praia, uma razovel extenso de areia e mar onde podia ficar a ss e pensar na vida. rf desde os dezoito anos quando, quando o avio do pai fora destrudo por uma bomba, desenvolvera-se como um furaco, arrastando tudo e todos na esteira de sua determinao. E agora no seria diferente.
Assim que entrou em casa, Lucy correu ao telefone.
No  a recepcionista do jornal local respondeu paciente.
O prazo para os anncios novos termina s dez da manh de quinta-feira, e a primeira publicao acontece na edio de sbado. Quer colocar um anncio nos classificados?
	Para ser franca, estava pensando em comprar uma pgina inteira.
	 claro. A tabela de preos...
Enquanto a recepcionista recitava os valores correspondentes aos diversos anncios, Lucy esforava-se para esconder o espanto e a decepo.
	Nesse caso, acho que vou ficar com os classificados simples  concluiu, antes de ditar as palavras que pretendia ver publicadas.
Agora era esperar e planejar. Quantas crianas poderia atender? Dez, decidiu. E todas entre cinco e dez anos de idade. E meninas,  claro. Garotos sempre causavam mais problemas. Se os atendesse no perodo da manh, no teria de fornecer almoos. Mas se chovesse, no poderia simplesmente mand-los embora, o que significava que teria de pensar em jogos e algum tipo de organizao. E teria de arrumar o telhado. Quanto ao preo... No tinha a menor ideia de quanto devia cobrar!
Disposta a pr o plano em prtica o quanto antes, trocou a cala jeans e a camiseta pelo velho biquini amarelo e foi limpar a praia com o ancinho que fora de seu pai. Era impressionante a quantidade de lixo acumulado numa praia deserta!
Havia enchido vrios sacos plsticos com folhas e outros detritos trazidos pelo mar, quando sentiu as primeiras dores musculares e percebeu que j eram quatro horas. Havia uma grande pedra no limite entre sua casa e a propriedade do vizinho e, com um suspiro, Lucy sentou-se para descansar e apreciar o resultado de seu trabalho.
	No h como negar a beleza de uma praia limpa.
A voz masculina partira de algum ponto s suas costas. Assustada, virou-se e viu Proctor parado a alguns passos da pedra, vestindo apenas um short curto e justo. Como gostaria de fulmin-lo com o raio fatal de seus olhos verdes!
Infelizmente, ele no a encarava. Parecia hipnotizado pelo suti do velho biquini amarelo. A tentativa de ajeitar o traje de banho s tornou a situao ainda pior.
	Quer ajuda?  ele adiantou-se alguns passos, sorrindo e estendendo as mos.
	No se atreva a invadir minha propriedade!
Satisfeita por t-lo contido, Lucy fez o possvel para cobrir-se com o tecido desgastado e sem elasticidade e levantou-se, partindo sem olhar para trs.
	Ei, voc!
Devagar, Lucastra! Se tentar virar o corpo depressa, vai acabar nua diante desse sujeito!
Enquanto virava-se, acrescentou um maio novo  lista de prioridades.
	Chamou, sr. Proctor?	
Ele ultrapassou o limite entre as propriedades como se o mundo lhe pertencesse. Lucy tentou engolir, mas a garganta estava seca. Se ao menos estivesse vestido... A viso do peito musculoso e bronzeado provocava sensaes com as quais no estava acostumada.
	Sim, chamei. E meu nome  Jim.	
	O que deseja, sr. Proctor?
	Jim. Estou com um pequeno problema.
Normalmente teria agarrado a chance de ajudar um semelhante
com unhas e dentes, mas esse sujeito precisava de uma lio, e o primeiro passo nesse sentido seria esvaziar seu enorme ego. Sorrindo, encarou-o e disse com voz doce:
	Meu corao sangra de compaixo, sr. Proctor.
	No estou interessado em sangue. E muito menos em seu corao. Na verdade, s preciso de uma bab. Afinal, por que no usa um biquini do seu tamanho? Um homem de sangue quente no pode conversar com uma mulher nesse estado sem...
- Ora, francamente! No me visto para provocar seus instintos masculinos! Infelizmente, esse  o nico traje de banho que tenho e...
	Tudo bem, tudo bem!  ele a interrompeu.  No vamos chegar a lugar algum trocando gritos e insultos. Podemos comear novamente?
	Podemos tentar. Espere um minuto, sim?  e virou-se devagar, caminhando com passos cautelosos. Deixava sempre uma sada de praia pendurada atrs da porta da cozinha, um velho vestido verde, e sentiria-se mais confiante se pudesse cobrir parte do corpo.
Segundos depois retornou, ainda amarrando a faixa em tomo da cintura.
	Assim est melhor  Proctor comentou ao v-la.  Podemos conversar?
	Sou toda ouvidos  ela respondeu com ironia, irritada com as reaes que o sujeito provocava em seu corpo.
	Bem, eu... gostaria de falar sobre Maude, minha filha. Ela tem aquele pequeno problema e...
	Maude  uma menina adorvel.
	Concordo. Independente, teimosa...
	Inteligente.
	Sim, inteligente. Adorvel, como voc acabou de dizer. E esse  o problema. Preciso de algum com quem ela possa passar a noite. Vou... receber uma visita esta noite, e prefiro que Maude no esteja por perto.
Ento ia receber uma mulher e queria a filha fora do caminho! O bastardo!
	 uma visita feminina, e no quero que Maude...
	J entendi. No quer que ela saiba que o pai est se divertindo.
	Gostaria de concluir algumas frases nessa conversa  e parou, respirando fundo para acalmar-se.  Poderia ficar com ela esta noite?
Direto ao ponto! No seria melhor se Maude estivesse longe da orgia que ele pretendia organizar em sua casa? Por que tinha de pensar nele? Maude era a pessoa mais importante nessa histria!
Tentando compreender os sentimentos confusos, encarou-o com ar desafiante.
	Depois das coisas horrveis que me disse esta manh, agora quer que eu cuide de sua filha?
	No conheo mais ningum na vizinhana.
	Ah! Agora descobriu que sou til, e por isso est me tratando com educao! Acho que me sentiria melhor se estivesse gritando.
	Voc  uma mulher interessante  ele comentou, aproximando-se um passo.
	No se atreva! Fique onde est, ou... Est bem, Maude pode passar a noite em minha casa  concordou, temendo que ele decidisse usar novamente seus mtodos de tortura.  Essa mulher...  algum que ela conhece?
	Lucrcia Brgia em pessoa.
	Quem?
	No aprecia o hbito da leitura, srta. Borden?
	Sei quem foi Lucrcia Brgia! Sou professora, quando estou empregada, e leio muito.
	E  bastante curiosa, tambm. Bem, ser s por uma noite... espero. Voltarei dentro de alguns minutos com as roupas de Maude e a bolsa de remdios. Ah, e quanto  mulher.,  tia dela. Sua futura madrasta, podemos dizer.
Proctor desapareceu alm da porta da manso e Lucy ficou onde estava, sentindo-se uma idiota. Por que estava to decepcionada. Que importncia tinha se ele pretendia casar-se? Afinal, era apenas um vizinho. Ningum importante. E por que Maude no podia encontrar a futura madrasta? E Proctor havia falado sobre uma bolsa de remdios?
O mistrio foi mais que suficiente para despertar sua curiosidade. Cansada, Lucy voltou para dentro de casa, sentou-se em sua poltrona favorita e deixou-se levar pela imaginao.
CAPITULO II

Maude chegou s seis da tarde trazendo um urso  pelcia.
	Importa-se se Ruprecht ficar comigo?
	No, desde que ele no coma muito  Lucy brincou.
	Ruprecht  um urso de pelcia! Ele no come nada! Voc  mesmo engraada. Foi o que disse a meu pai, mas ele acha que voc  peculiar, e no engraada. Por que ele diria tal coisa?
	No sei. Os homens so criaturas estranhas. Trouxe tudo de que precisa para passar a noite?
	Tudo.
	Camisola, escova de dentes...
	Ah, no... Esqueci  Maude olhou por cima do ombro, como se pretendesse voltar  manso.  Ela chegou, e tive de sair correndo. No gosto de ficar perto dela.
	Entendo.  Tome nota, Lucy Borden. Descubra quem  ela, e por que essa criana tem tanto medo.  Vamos entrar. Vou lev-la para conhecer seu quarto, e depois faremos o jantar.
De mos dadas, as duas subiram os degraus da varanda e entraram pela cozinha.
	 bonito  Maude Proctor opinou ao ver a decorao da sala de estar.  Sabia que nossa casa tem quinze cmodos, e que a maioria deles est vazia?
	No, eu no sabia. Pelo menos tm bastante espao.
	 verdade. Mas quando papai resolve dar uma festa, a casa fica repleta de gente que quer beber e dar tapinhas na minha cabea. Odeio tapinhas na cabea! Um deles gosta de beliscar minha bochecha. Acho que ainda vou mat-lo.
	Palavras fortes  Lucy comentou antes de encolher os ombros.Talvez ele merea. Muito bem, srta. Proctor, seu quarto fica bem aqui no segundo andar. E o banheiro fica ao lado.
Maude parou na soleira.
	Meu quarto? Sabia que eu viria? A cama  do meu tamanho!
E o papel de parede  adorvel!  feito de... tiras cmicas, no?
	Tiras importantes  Lucy corrigiu com ar solene.  Cortadas do Boston Sunday Globe. Ocupei este quarto durante toda a infncia e adolescncia, e meu pai deixava.que eu o decorasse como quisesse.
Maude correu e atirou-se na cama.
	No vai ficar brava por eu ter pulado na cama?
	Hoje no. Mas, da prxima vez, procure conter-se.
	Seu pai nunca volta para casa?
	No. Ele ficou muito triste depois que minha me se foi, e finalmente partiu ao encontro dela. Mas isso aconteceu h muitos anos, e agora j me acostumei com a solido.
	Eu sinto muito. Sei como  terrvel crescer sozinha. Talvez possamos ser amigas, e assim teremos com quem conversar. Ou ento... Bem, voc tem idade para ser minha me. Vai descobrir que sou uma boa menina, e prometo cuidar de voc quando crescer. Isto , se cuidar de mim at l. Seria bom ter uma filha to linda e inteligente, mas... Mas eu pensei que j tivesse uma me.
	E claro que j tive, mas ela morreu.
	Sim, mas aquela mulher que est visitando seu pai... 
	Ela  minha tia, e  muito m. No sei por que papai quer se casar com aquela bruxa. Ele diz que preciso de algum para cuidar de mim, e que por isso vai se casar com a irm de minha me, tia Eloise. Mas ela no gosta de mim. Os dois tiveram uma discusso terrvel h dois anos, e Eloise foi embora. Pensei que nao voltaria mais a nos perturbar, mas agora ela est aqui novamente. Papai ainda acha que preciso de uma nova me, e os dois reataram.
	Parece um grande plano.  Queria mesmo saber quem era a tal mulher misteriosa, mas Maude Proctor estava comeando a falar demais.  Acho que no devemos falar sobre seu pai. Tenho certeza de que ele ficaria furioso se soubesse que est contando a vida dele aos vizinhos. E ento? Gostou do quarto?
	 lindo!  a criana exclamou com entusiasmo, rodando para ver tudo que a cercava.  Sabe o que tenho em meu quarto?
Nada. As paredes so pintadas de marrom. Ruprecht costuma dormir em baixo da cama para no ter de ver aquela cor horrvel.
No imagina... como devo cham-la?
	Meu nome  Lucastra, mas pode me chamar de Lucy. E tambm pode usar uma de minhas velhas camisetas de basquete como camisola. Tambm tenho uma escova de dentes nova em algum lugar. Qual  o problema?
	Lucastra? Uau, que nome! E esta camiseta  do Rochester! J foi uma estrela do basquete?
	No, mas namorei um jogador do time. E agora, qual  o problema?
	Nenhum.  que... seu quarto  muito longe? s vezes acordo no meio da noite, ou ando dormindo, falo e...
	Fica bem aqui, princesa  ela sorriu, levando-a ao quarto ao lado do banheiro.
	Oh! Mas voc no tem quadros!
	 claro que no! Agora sou uma garota crescida, e no preciso mais de tantos enfeites. Isso  o suficiente  e abriu os braos, esperando que ela examinasse o papel de parede em tons claros, a penteadeira simples e a mquina de costura num canto, alm da cama.
	Entendo. No vai ficar brava se eu vier...?
	Visitantes so sempre bem vindos  Lucy a interrompeu, passando um brao em torno de seus ombros.
	Gostaria de ter uma me como voc.
	Ah, mas no esquea que sou muito velha. Alm do mais, teramos de envolver seu pai nessa histria, e acho que a operao seria realmente complicada.
	No entendo por que no gosta dele. Papai  um grande sujeito. Todos o adoram! Inclusive eu. Quero dizer, nem sempre. s vezes ele consegue ser realmente aborrecido.
	Entendo. Bem, pessoas diferentes gostam de coisas diferentes. Venha, vamos lavar as mos e preparar o jantar. Tem alguma sugesto?
Comeram hambrgueres e batatas fritas sem nenhum sinal de verduras ou legumes, ausncia que Maude comentou com ar agradecido.
	Isso  porque estamos vivendo um dia especial. Mas se morasse aqui, saberia que como verduras diariamente, principalmente brcolis.
	Argh! Felizmente vim no dia certo. Nem o presidente gosta de brcolis!
	Mas ele paga um preo alto por isso.  obrigado a viver em Washington, e no tempo nem para uma visita rpida a Mattapoisett.
	No sei se isso  um castigo  Maude suspirou.  Moro aqui h pouco tempo, mas j estou ficando aborrecido com todo esse silncio. Posso ajud-la com os pratos?
Terminaram de lavar a loua pouco depois das oito, quando o longo dia de vero comeava a transformar-se em noite.
	Quer sentar-se na varanda e apreciar o anoitecer?  Lucy sugeriu.
	No parece muito animado  Maude comentou com um sorriso, seguindo-a atravs da porta.
A lua transformava a areia da praia numa esteira de prata, e o ar quente carregava os sons da festa na manso vizinha.
	Comearam cedo  Lucy indicou.
	Eles sempre comeam cedo e terminam tarde  a garota explicou, sentando no ltimo degrau da escada e apoiando a cabea no ombro da nova amiga.  E entre o incio e o fim, mentem, bebem, fumam e contam piadas sujas. J ouviu aquela do...?
	No estou interessada.
Maude parecia disposta a insistir, mas de repente a festa do vizinho transbordou para a praia. Trs ou quatro casais perseguiam-se e corriam em crculos, gritando como loucos. Era difcil compreender o objetivo do jogo, mas as pessoas iam tirando as roupas enquanto corriam e o crculo diminua gradualmente, movendo-se na direo da casa de Lucy.
	Maude, acho que  hora de ir para a cama  ela indicou, levantando-se de um salto.
	De jeito nenhum! Queria conhecer minha famlia? Fique aqui e observe.
Os casais haviam desistido do crculo. Dois pares estenderam cobertores na areia e deitaram-se. Apreensiva, Lucy segurou a mo da garota e rezou para que no pretendessem fazer o que estava imaginando. Apesar do calor da noite, Maude era sacudida por tremores espordicos. Um dos casais continuava correndo. A mulher seguia na frente, e em poucos segundos ultrapassou a rocha que servia de limite entre as duas propriedades e continuou aproximando-se do terrao. O homem que a perseguia deixou-se cair sobre a rocha e desistiu da brincadeira, exausto.
Cambaleando e respirando com dificuldade, a desconhecida parou junto  escada da varanda e sorriu com expresso estranha. Maude aproximou-se de Lucy e enlaou sua cintura como se estivesse com medo.
	Maude, querida  a invasora disse com voz pastosa, deixarido-se cair de joelhos sobre a areia.  Que surpresa! Pensei que estivesse na cama. E quem  essa... essa coisa esquisita?
	V para dentro, Maude  Lucy ordenou com firmeza, acompanhando-a at a porta.
A desconhecida levantou-se e agarrou-se  balaustrada da varanda para equilibrar-se.
	Ei, que maneira mais tirana de tratar uma criana! J sei quem voc . James vive falando a seu respeito. No  engraado? Vim at aqui para me casar com ele, para prestar um favor, e tudo o que ele sabe fazer  falar sobre a tal Lucy que mora na casa ao lado! A propsito, meu nome  Eloise. Desculpe os trajes informais... ou a falta deles  ela riu.
Havia uma toalha sobre a balaustrada e, irritada, Lucy a atirou para a invasora.
	Cubra-se.
Eloise apanhou a toalha no ar, cheirou-a e torceu o nariz.
	Essa coisa cheira mal!
	O cavalo no reclama. Cubra-se de uma vez! No somos de muitas cerimnias por aqui, mas correr nua pela praia, e diante de uma criana... algum devia ensin-la a comportar-se melhor.
	A nudez  artstica, minha querida. Tem uma bebida forte  mo?
	No. E saia de minha propriedade  Lucy explodiu, aproximando-se de Eloise com ar ameaador.
Pequena e delicada, a loira gritou como se algum a ameaasse de morte e saiu correndo como se o diabo a perseguisse. O que ela no sabia era que o demnio estava  sua frente, ao lado da rocha que limitava as duas casas.
	Que diabos est fazendo?  a voz masculina disparou com impacincia.
	Estava correndo pela praia  Eloise respondeu com tom meloso.  E conheci aquela sua adorvel vizinha. Ela  to gentil, que at me emprestou esta toalha. E tambm vi Maude. Por que a mandou passar a noite fora de casa?  ela perguntou, deixando-se levar para o interior da manso.  No devia ter feito isso. Sabe que adoro cuidar daquela criana!
Lucy permanecia parada na escada da varanda, observando a cena grotesca protagonizada por Proctor e sua noiva. Ao v-los desaparecer alm da porta da manso, suspirou e sentou-se no degrau mais alto procurando acalmar-se.
Ainda no havia conseguido sequer recuperar o ritmo da respirao quando ouviu a voz profunda e imperiosa.
	Srta. Borden? Lucy?
Ento ele havia voltado!
Irritada e apreensiva, levantou-se de um salto e comeou a explicar:
	Samos apenas para apreciar a beleza da noite. Ento aquela...
	Maluca  ele cortou.  Por acaso Maude os viu?
Espero que no. Eu a mandei para dentro de casa, mas ningum sabe o que uma criana  capaz de ver ou ouvir. Aquela e Eloise, a mulher com quem pretende se casar?
	Maldio!
Era o que eu ia dizer. E agora, sr. Proctor, se puder recolher o que restou de seus convidados, ns, pessoas...  pretendia dizer decentes, mas achou melhor no abusar da sorte.  Ns, pessoas normais, precisamos dormir.
	Gostaria de voltar mais tarde e explicar  ele murmurou.
	No preciso de nenhuma explicao. Voc tem o direito de fazer o que quiser em sua propriedade. Vai levar Maude de volta?
	Oh, no! Por que acha que pensaria em levar uma criana to doce para perto daqueles...?
	Sim, por qu?  Lucy repetiu com sarcasmo, virando-se e entrando em casa antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.
	E ento? Tenho de voltar para l?  Maude perguntou ao v-la entrar na cozinha.
	No. Seu pai no quis lev-la para casa.
	Aquilo no  uma casa! no enquanto aquela maluca estiver por l. Ficaria feliz se pudesse passar muitas noites aqui, sabe?  e espirrou, arrepiando-se e respirando com dificuldade.
Oh, no! Por isso trouxera um inalador!
Apressada, Lucy foi busc-lo no quarto e ajudou-a a us-lo. Depois de anos lidando com classes cheias de crianas, habituara-se com todo o tipo de emergncia mdica. Maude respirou fundo vrias vezes e finalmente os espasmos comearam a diminuir.
	Vamos tomar uma xcara de chocolate quente antes de ir para a cama, est bem?
A criana tossiu e, ofegante, perguntou:
	Tambm vai dormir? So nove e meia da noite! Adultos no vo para a cama  esta hora!
Lucy j estava preparando o chocolate, a mente ocupada com milhes de ideias conflitantes. Depois de observ-la em silncio por alguns instantes, Maude foi para o quarto sem insistir na pergunta.
Afinal, em que tipo de confuso estava metida? A me daquela menina havia morrido. A tia coma nua pela praia com um bando de malucos. O pai julgava-se capaz de explicar tudo. Era evidente que devia haver algum tipo de explicao para um comportamento to estranho. Uma gota de leite fervente respingou em sua mo, trazendo-a de volta  realidade.
	fvjo h nada como um dedo queimado para nos fazer prestar mais ateno  ela comentou, virando-se e sorrindo.  Maude?
Ouvindo os sons abafados no andar de cima, Lucy arranjou as xcaras de chocolate e um prato com biscoitos numa bandeja e subiu.
	Maude?
	Aqui  ela respondeu do quarto escuro.
Lucy caminhou at perto da cama e conseguiu colocar a bandeja sobre a mesa de cabeceira antes de acender o abajur.
	Equilbrio invejvel  brincou.
	Tem razo. No trouxe marshmallows?
	No. Um marshmallow tem mais calorias do que uma fatia de bolo de chocolate com creme. Beba enquanto est quente.
	Voc sabe tudo?  Maude explorou com cautela.
	No. Ainda no tenho certeza sobre algumas coisas.
	Quem enfrentou a Batalha de Jeric?
	Est vendo? Essa  uma das coisas sobre as quais ainda no tenho certeza. Vamos beber o chocolate e dormir.
	Posso tomar mais uma xcara?
	Vamos deixar para amanh, est bem?  Lucy sugeriu com um sorriso, esperando que ela terminasse para recolher a bandeja com as xcaras vazias.  Boa noite. Ah...  exclamou antes de sair.  Sobre a Batalha de Jeric, a resposta  Joshua.
	Voc sabia!  Maude reclamou.
Rindo, Lucy saiu e desceu a escada cantarolando uma cano que aprendera na infncia, nas aulas de catecismo.
	Joshua enfrentou a Batalha de Jeric e as muralhas ruram...
	J chega!  Maude gritou do quarto.
Cale a boca, garota, ou vou comear a cantar em italiano. No, no, por favor! Poupe-me! Evitar o castigo  estragar a criana.
Assustada com a voz masculina s suas costas, Lucy virou-se e derrubou a bandeja com as xcaras.
Oh! Veja o que fez! Que diabos est fazendo em minha casa?
	O que qualquer pai faria em meu lugar. Vim ver se minha filha est bem.
	Se acha que estou torturando sua garotinha, v ver com seus prprios olhos.
	De jeito nenhum! Se ela acordar, voltaremos  estaca zero.
	At que no seria uma m ideia. Afinal, perdi  fio da meada no meio do caminho, e no sei nem em que ponto estamos. Sabe de uma coisa, sr. Proctor? Conseguiu despertar minha curiosidade. Por que no senta-se, enquanto vou buscar um drinque? Mal posso esperar para ouvir suas explicaes.
Jim afirmou com a cabea e acomodou-se em uma das cadeiras da cozinha.
	 uma velha casa  comentou casualmente.
	Mais do que pode imaginar. Meus ancestrais a construram em 1746.
	Ah! Puritanos orgulhosas da terra?
	No. Pioneiros orgulhosos da casa. H uma enorme diferena, como deve saber.
	No, no sei. E pensei que ia me oferecer um drinque.
	Infelizmente, no temos muitas opes.
	No vai conseguir livrar-se de mim com uma desculpa to tola.
	Estou falando srio! No tenho nenhuma bebida, a menos que...
	Prossiga.
	A menos que tenha muita coragem, sr. Proctor.
	Jim  ele a corrigiu.  Meu nome  James, mas as pessoas me chamam de Jim. E por que preciso ser to corajoso para tomar um drinque?
	Porque s tenho licor de pssego feito em casa. Minha av o fez antes de morrer.
	E h quanto sua querida vov se foi?
	H quinze anos. Vai arriscar?
Proctor riu como se no acreditasse no que ouvia.
	Se a bebida no quebrou a garrafa em todos esses anos, no poder fazer nenhum mal ao meu estmago.
	Isso  o que voc pensa  ela resmungou enquanto apanhava o saca-rolhas.
As coisas iam de mal a pior. No tinha taas, nem clices, nem copos de cristal. Na verdade, os nicos copos que possua eram os de requeijo e massa de tomate que lavava e guardava depois de utilizar o contedo. Pensando bem, talvez fosse melhor expor sua verdadeira situao de uma vez por outras, disse a si mesma, servindo uma dose dupla e colocando o copo grosseiro diante dele.
Proctor examinou a bebida com cautela e cheirou-a. Lucy esperou, ansiosa. Sabia que o licor de sua av tinha um excelente bouquet, mas tambm conhecia seus efeitos.
	Minha me costumava usar copos como este  ele comentou.
Ah, podia apostar que sim! Como se no bastasse o constrangimento de receber uma visita sem as mnimas condies de conforto, ainda tinha de atur-lo tentando conquistar sua simpatia com truques ridculos.
	Sua me era uma mulher de bom gosto  ela respondeu com ironia.  Beba de uma vez.
Jim ergueu o copo num brinde silencioso e esvaziou-o de um s gole. Por um momento conservou o sorriso provocante, mas de repente fechou os olhos e, vermelho, comeou a tossir.
Lucy levantou-se de um salto e bateu em suas costas at que ele a empurrou, lutando para recuperar o flego. gua! Talvez um pouco de gua o ajudasse. Rpida, correu at a geladeira e apanhou a garrafa de leite que servia como jarra.
Em seguida voltou para perto dele e, solcita, despejou a gua onde deveria estar a boca de Jim Proctor. Deveria... mas no estava.
	Devo admitir que  um homem de coragem  Lucy reconheceu quinze minutos mais tarde.
Sou um homem de muita sorte, isso sim. Caso contrrio, voc teria me afogado  ele resmungou, enxugando-se com uma toalha.
	Tem razo. Quer mais um pouco de licor de pssego?
	No quero mais nada desta casa  Proctor indicou em voz baixa, aproximando-se com ar ameaador.  No me faa mais favores, est bem? Quando a conheci, fiquei tentando imaginar por que ainda no havia se casado. Agora sei a resposta. Voc  uma catstrofe ambulante!
	O que queria dizer a respeito de Maude?  Lucy perguntou, disfarando a apreenso e afastando-se alguns passos.
	Maude tem asma. Os episdios no so muito frequentes, mas achei melhor mandar o inalador e o remdio. Acha que ser capaz de ajud-la, se for necessrio?
	Tenho certeza que sim, sr. Proctor. Normalmente consigo passar cerca de quarenta e oito horas sem cometer grandes bobagens. Mais alguma coisa?
	Eu... no. S quero pedir desculpas por meus convidados. No imaginei que fossem to longe. Eloise e eu planejamos uma pequena reunio, e sugeri que ela trouxesse alguns amigos de Boston. Espero que tenha sido apenas uma ocorrncia isolada.
	Aceito suas desculpas  disse, apesar da vontade de argumentar.
Proctor tambm percebeu que ela s concordava para livrar-se de sua presena, mas decidiu fingir-se convencido. Afinal, s teria a ganhar se cultivasse sua amizade. Maude gostava dela, e agora percebia que a vizinha no era to sem atrativos quanto imaginara.
	O que faz para viver?
Lucy encarou-o com ar suipreso antes de responder:
	Sou professora substituta no sistema de ensino local. Durante as frias de vero, fao um pouco de tudo.
	Qualquer coisa?
	Qualquer coisa legal... e moral. No devia estar com seus convidados?  ela inquietou-se.  Afinal, se vai mesmo se casar com sua cunhada...
	O nome dela  Eloise. E as paredes realmente tm ouvidos por aqui, no? Se quer mesmo saber, estamos pensando em nos casar pelo bem de Maude.
	Por Maude? Ah, pelo amor de Deus!
	Por que o espanto? No percebe que a menina precisa de uma me? Ela  teimosa, rebelde, e no tenho tempo para disciplin-la. Acho que Eloise, como irm de sua verdadeira me,  a melhor soluo. E o arranjo certamente facilitaria as coisas para os avs dela. Eles idolatram o cho que Maude pisa, sabe?
 Acho que sim.
Gostaria de insistir no assunto, mas era evidente que Proctor ficava impaciente com suas perguntas, e no queria aborrec-lo. No depois de tudo que j havia feito. Em silncio, acompanhou-o at a varanda e pensou se no estaria lhe prestando um favor impedindo seu casamento com Eloise. Mas... seria capaz de roubar um homem de outra mulher? E como se conseguia tamanha proeza?
Talvez houvesse algum livro sobre o assunto na biblioteca local.
Mas, no dia seguinte, quando sasse, Lucy no pensaria em livros. A primeira coisa que faria ao chegar ao centro comercial seria comprar um novo traje de banho, um maio que aderisse ao corpo como uma segunda pele, mas mantivesse todas as partes mais importantes cobertas.

Capitulo III

As estrelas haviam desaparecido e uma chuva for- caa sobre Mattapoisett, abafando o rudo das ondas e o barulho da festa na casa ao lado. Enquanto esperava que a gua fervesse para fazer uma xcara de ch, Lucy foi verificar se Maude dormia bem e, precavida, deixou o inalador e o remdio sobre a mesa de cabeceira.
Pobre criana! O pai e a tia iam se casar s por que ela precisava de uma me? Jamais ouvira pior motivo para um casamento. Especialmente quando a me substituta era Eloise. Maude a considerava pior que a madrasta malvada, e isso s poderia acrescentar problemas ainda maiores aos j existentes. Afinal, a cincia j havia comprovado que a asma era, antes de tudo, uma doena de origem emocional.
O apito da chaleira a atraiu de volta  cozinha. De posse da xcara de ch, Lucy dirigiu-se ao banheiro e passou algum tempo mergulhada num banho morno, tentando livrar-se da tenso fsica e mental.
Proctor ia se casar com Eloise, repetiu pela milsima vez a si mesma enquanto enxugava-se. Por que ele faria tamanha besteira, se havia uma substituta bem melhor na casa ao lado? Diante do espelho, examinou-se com uma careta de insatisfao.
Eloise era alta, magra, com lindos olhos azuis e longos cabelos dourados. Os ossos de seus ombros podiam ser vistos com perfeio sob a fina camada de carne que os cobria. Os seios eram fartos, como os daquelas modelos que cobriam as pginas das revistas masculinas.
E voc, Lucastra Borden...
Baixinha, rolia, com seios firmes e cheios que pareciam encar-la atravs do espelho numa atitude indecente. Cabelos castanhos na altura dos ombros, pois nunca tivera tempo ou pacincia para cuidar deles e deix-los crescer. E olhos verdes. O que uma mulher com cabelos castanhos podia fazer com olhos verdes? Uma combinao absolutamente sem graa!
	Portanto, tenho muito sorte por no querer esse homem concluiu em voz alta, vestindo a camisola e saindo do banheiro como se o reflexo do espelho a incomodasse.
Eram duas horas da manh quando Lucy acordou assustada com um barulho estranho.
Choro. Uma criana chorando.
	Posso entrar?
Sobressaltada, sentou-se na cama e olhou para a porta.
	 claro que pode entrar!  exclamou, acendendo o abajur e abrindo os braos para a pequena Maude. - O que foi, querida?
	Eu... minha cama.
	O que tem a cama?
	Est molhada.
Molhar a cama era um sintoma claro de ansiedade e tenso, e uma evidncia de que a criana em questo precisava de apoio.
	Ei, acidentes acontecem. V tomar um banho morno, enquanto mudo os lenis de sua cama.
	No foi um acidente.
	No? Venha, vamos preparar o banho e tirar essa camiseta molhada.
	Acredita em mim?
	 claro que sim! Por que duvidaria d sua palavra?
	Ela no acreditaria. Nunca acredita em nada do que digo.
	E mesmo? Ponha a mo na banheira e veja se a gua est muito quente.
	Est tima. O que fao com essa camiseta?
	Jogue-a naquele canto. Virei busc-la num minuto. Que tal esses sais de banho? Espuma verde.
	Nunca tomei banho de espuma. No est zangada comigo?
	No, querida. Isso pode acontecer com qualquer pessoa. Vamos, entre na banheira e divirta-se, enquanto vou cuidar da cama.
	Tome cuidado.
	 claro.
Por que deveria tomar cuidado?
Assim que aproximou-se da cama, Lucy descobriu a resposta. Os lenis estavam ensopados! No tinha grande experincia com as necessidades ntimas de uma criana, mas devia haver litros de gua naquela cama!
Intrigada, retirou os lenis e viu que o colcho tambm estava ensopado. Quando inclinou-se para verificar a extenso do dano, um pingo caiu sobre sua cabea.
	Oh, no!  exclamou, olhando para cima e descobrindo o grande crculo escuro no teto. No meio desse crculo formava-se uma grande gota de gua. E outra... Outra!  Maude!  gritou, entrando no banheiro como um furaco.  No precisa mais se preocupar. Voc no  responsvel pela cama molhada.
	E claro que no! Voc pensou...? Ah, no! Pensou que eu houvesse molhado a cama? H um buraco no seu teto!  ela respondeu indignada, como se fosse crime ter uma goteira em casa.
	Ento voc viu? Ora... Por isso no sou me de ningum. No tenho a intuio necessria.
	No se preocupe. Isso pode ser aprendido. Mas primeiro vai ter de consertar o teto.
	Primeiro preciso conhecer algum em algum banco disposto a me emprestar um bom dinheiro  Lucy balanou a cabea. 
  quase impossvel, sabe? Eles preferem emprestar dinheiro para quem no precisa dele.
	Conheo muitas pessoas num banco. Por que no vamos visit-lo amanh?
	Seria uma excelente ideia  Lucy aceitou a sugesto sem entusiasmo.
J estivera em todos os bancos da regio e nenhum deles aprovara seu pedido de emprstimo. Mesmo assim, se no estivesse chovendo na manh seguinte, no perderia nada por tentar.
Vamos l, mocinha. Vai ter de passar o resto da noite em minha cama.
Como jamais dividira uma cama com algum, Lucy teve dificuldade para pegar no sono. Deitada de costas, olhando para a escurido, pensou em todos os problemas que enfrentava e s conseguiu agravar a insnia. Um emprstimo para reformar a casa... Por que no construir uma casa nova, maior e mais espaosa, e com teto baixo para obrigar um certo sujeito a curvar-se antes de entrar? Com algum treino, o tal homem poderia at tornar-se subserviente e adquirir o hbito de inclinar-se diante dela sempre que ordenasse. Talvez pudesse at fazer algumas outras coisas para as quais ainda no conhecia os comandos.
Quando acordou, Lucastra Borden sentiu-se aliviada por ter conseguido escapar do sonho ertico antes do desfecho fatal.
E aqui  Maude indicou.  O banco de papai fica na esquina da Highway com a Main Street.
Lucy conhecia o lugar. H um ano, aquela havia sido a ltima parada em sua infrutfera excurso pelas instituies financeiras da regio. Mas o setor de emprstimos estava cheio de rostos novos, e Maude a levou diretamente  mesa do chefe do departamento, um rapaz chamado John Ledderman. Ali estava ele! O dono da caneta capaz de transformar sua casa num local digno de orgulho e respeito.
Ol, sr. Ledderman. Lembra-se de mim? Sou Maude Proctor. Meu pai  o dono deste banco.
E claro. O que posso fazer por voc, Maude?
Essa  minha amiga Lucastra Borden. Lucy...
	Lucy Borden?  John Ledderman repetiu, encarando-a como se vasculhasse a memria em busca de alguma informao, tao seus olhos iluminaram-se e ele sorriu.  Lucastra Borden!  um prazer conhec-la!
	?  -- Ela retribuiu o sorriso, certa de que o sujeito a contundia com outra pessoa.
	  claro que sim, srta. Borden. Posso cham-la de Lucy?
	Como quiser.  Podia cham-la de todos os nomes que esse, desde que aprovasse o emprstimo.
	Lucy Borden  John balanou a cabea.  Imagine s! Minha noiva e eu falvamos a seu respeito ainda ontem.
	Sua... noiva?
	Mary Norris. A enfermeira Norris, do Asilo Merit. Ela me disse que... ah, no tem importncia. Em que posso ajud-la, Lucy?
	Eu preciso...  e parou, sem saber como comear. Em seguida respirou fundo, armou-se de coragem e disparou:  Preciso de dez mil dlares para reformar minha casa.
	S isso?
	Sim... por enquanto  ela estranhou, sentando-se na cadeira que ele indicava.
	s vezes  melhor emprestar uma quantia maior do que a necessria.
 Mas minha casa no  muito...
	No se preocupe  ele riu, atraindo a ateno das pessoas que trabalhavam nas mesas mais prximas. Constrangido, ajeitou a gravata e prosseguiu:  Os bancos existem para emprestar dinheiro, Lucy, mesmo que as garantias paream insuficientes. Alm do mais, voc tem potencial. Voc e a sra. Moore,  claro.
	Nesse caso, por que no dobramos o valor? Vinte mil dlares. S para garantir,  claro. Onde devo assinar?
	Oh, no  to simples  ele suspirou, como se estivesse aborrecido por no poder abrir a gaveta e entregar o dinheiro imediatamente.  Precisamos preparar a documentao legal. Espero poder levar a papelada  sua casa dentro de... vinte e quatro horas. Se estiver de acordo,  claro.
	Oh, estou! Onde estava no ano passado, quando precisei de voc?
	Como disse?
	Ah, esquea. Ficarei em casa  sua espera. Tambm levara o dinheiro?
	No exatamente  ele sorriu.  O dinheiro ser depositado numa conta corrente que abriremos em seu nome, aqui mesmo na agncia. Levarei um talo de cheques para que possa moviment-la.
	timo! Bem, foi um prazer fazer negcios com voc. Odiaria ter de discutir esse emprstimo com o sr. Proctor. Ele me d... calafrios.
	No acha estranho como as pessoas reagem de maneira diferente aos mesmos estmulos? Todos ns gostamos muito do sr Proctor. Sem falar na tropa de escoteiros que ele patrocina, o time de basquete, as obras da igreja...
	Deve ser outro Proctor  ela cortou.  Vamos embora, Maude.
Na porta do banco, a garota tentou det-la para dizer alguma coisa, mas Lucy a puxou pela mo.
	Corra, antes que ele mude de ideia!
	Lucy...
Seguindo a direo dos olhos da criana, Lucastra compreendeu que o pior ainda estava por vir. Parado no primeiro dos quatro degraus da entrada, Jim Proctor as observava como se quisesse esgan-las.
	Ora, ora... Por isso no consegui encontr-las em casa. O que esto fazendo aqui?
	Bom dia, papai. Lucy s queria conhecer o banco.
	E eu quero que passe o dia com Eloise. Temos muitas coisas a acertar e pouco tempo para discuti-las.
	Mas, papai, ontem  noite ns...
	No discuta! Quero que v para casa imediatamente. Eloise est esperando por voc. Irei at l assim que for possvel para ver como esto se saindo. Ia dizer alguma coisa, srta. Borden, ou costuma ficar com essa cara de espanto sempre que encontra um vizinho?
	Gostaria de dizer vrias coisas, sr. Proctor. Por exemplo...
	Agora no. Maude, entre no carro. Frank a levar para casa.
	Mas Lucy vai...
	Vai adorar caminhar pela praia num dia to lindo  ele completou.
A criana foi colocada dentro do carro, o banqueiro foi tragado pelas portas de seu imprio econmico e Lucy ficou parada na escada, sem saber o que fazer. Ento as portas se abriram mais  uma vez  e Proctor reapareceu.
	Fico feliz por ter vindo conhecer o banco, mas espero que no volte. Estremeo ao pensar no que pode acontecer se tivermos de discutir negcios  e entrou sem esperar por uma resposta.
	 melhor nem pensar  ela resmungou.
O Asilo. Merit ficava alguns quarteires distante do banco, e Lucy decidiu aproveitar para informar-se sobre o estado de sade de Angie Moore. Ao aproximar-se do prdio, a intensa atividade na calada chamou sua ateno. Um grande caminho de mudanas estava estacionado bem na porta do enorme casaro, e trs outros automveis o cercavam. Alguns homens carregavam mveis para fora do edifcio.
No saguo, um grupo de enfermeiras e assistentes reunia-se em torno do balco de informaes, e as vozes exaltadas davam a entender que algo de muito srio acontecia. Certa de que no conseguiria nenhuma explicao no meio de todo aquele caos, Lucy atravessou o saguo e dirigiu-se ao quarto de Angie, onde a confuso era ainda maior.
	Oh, Lucy! Graas a Deus veio depressa!  a sra. Moore uniu as mos num gesto de gratido, os olhos azuis cheios de lgrimas. Um cobertor havia sido colocado sobre suas pernas, na cadeira de rodas.
	Por que est to aflita?
	Ento no sabe? Pensei que estivesse aqui para tentar resolver o problema!
	Que problema? O que est havendo aqui?
	O banco executou a hipoteca da casa. Temos vinte e quatro horas para desocup-la, e no sei para onde ir!
Por isso ele parecia to animado! Sabia que existiam mais trs bancos na cidade, e que qualquer um deles poderia executar uma hipoteca, mas um movimento como esse s poderia ser orquestrado pelo maior vilo dentre todos os banqueiros. James Proctor!
Forando um sorriso, Lucastra ofereceu um leno  amiga e disse:
	Por que diz que no sabe para onde ir? Voc vai para a minha casa! Com todos aqueles quartos vazios, ainda perde tempo se preocupando com bobagens?
	Mas... voc no tem tempo para cuidar de mim. No imagina como o trabalho  terrvel!
	Cuidar de uma boa amiga no pode ser terrvel. Alm do mais, no consegui um emprego para preencher meu vero, e at a escola reabrir, terei todo o tempo do mundo para voc. Vou buscar o carro em casa. Enquanto isso, pea s enfermeiras para prepararem suas coisas.
	Sempre quis voltar a viver perto do mar  Angie confessou.  As pessoas aqui so boas, mas... vai voltar logo?
	Imediatamente. Prometo  e inclinou-se para beij-la na testa.  Pense em como a comida ser melhor, Angie!
O automvel de Lucy era uma verdadeira antiguidade. Comprado por seu av na poca da Segunda Grande Guerra, o Packard preto passara anos na garagem, esquecido, at que um mecnico oferecera-se para consert-lo em troca de algumas aulas particulares para sua filha. Lucastra aceitara de imediato, e felizmente podia contar com um bom carro para qualquer emergncia.
Havia ido buscar Angie no asilo e agora estava transportando todos os objetos da amiga para dentro da casa. Era um trabalho rduo, especialmente sob o sol inclemente da tarde, e por isso recebeu a chegada do Cadillac com um suspiro aliviado.
	Precisa de ajuda?
	O que acha?  perguntou irritada, virando-se para tentar fulminar Jim Proctor com os olhos.
Rindo, ele desceu do automvel e aproximou-se. Havia algo de diferente em sua atitude, alguma coisa alm das roupas, uma cala jeans informal e uma camiseta da mesma cor das alpargatas, que usava sem meias. O sorriso, talvez? Ou o brilho nos olhos? Devia ser o ar de felicidade. E por que no? Tivera uma manh proveitosa executando hipotecas e despejando pobres velhinhos!
	J preencheu a cota do dia?
	Cota?
	Seu banco no tem uma cota diria de execues e cobranas.
No sei do que est falando... mas no me explique, por favor. Tenho certeza de que acabarei compreendendo mais cedo ou mais tarde.
E enquanto isso, precisava dele para carregar toda aquela tralha. Para que serviam tantos msculos, seno para ajudar algum em extrema necessidade e jogar mocinhas indefesas na cama?
	Ser que pode me ajudar a levar todas essas coisas para dentro de casa? Vamos transformar a biblioteca num quarto para Angie.
	Deixe isso comigo e v fazer um caf  ele ordenou, recolhendo mais da metade dos objetos do porta-malas.  Ei,  um Packard'1934! Funciona?
	 claro que funciona.
	No precisa ficar nervosa. Foi s uma pergunta inocente. Sabia que vocs colecionadores eram temperamentais, mas...
	Vai levar essas coisas para dentro, ou no?
	J estou indo  ele apressou-se.  E no se preocupe comigo. Posso encontrar o caminho sozinho.
Angie Moore estava sentada em sua cadeira de rodas na sala de estar, e seus olhos luminosos fixaram-se no recm-chegado com interesse.
	Ora, se no  o pequeno Jimmy Proctor!
	Senhora?
	No se lembra de mim?
	Eu... acho que no, senhora.
	Pare com essa histria de senhora! Eu costumava bater em seu traseiro trs ou quatro vezes por ano por roubar as mas do meu quintal. Sua famlia morava duas casas abaixo da minha, e voc era um moleque endiabrado. Olhe s para isso! Como mudou!
	, acho que cresci um pouco  ele sorriu.
	Mas continua endiabrado?
	Bem...  difcil admitir certas coisas quando se  um banqueiro.
	No me diga! Alto, bonito e bem posicionado profissionalmente?
	Mais ou menos  Jim concordou, lembrando-se vagamente da vizinha com lindos olhos azuis que o castigava por roubar mas de seu quintal, e depois o fazia tomar sorvete enquanto recuperava-se das palmadas. A punio de Angela Moore era infinitamente melhor que a de seu pai, cuja mo pesada podia deixar marcas mais profundas e duradouras.
	Acho que apareceu na hora certa, Jim Proctor. Voc  casado?
	No... no momento.
	Otimo. H uma garota maravilhosa l fora cuja nica falha  ser solteira. Ela precisa de um marido para completar sua vida.
Uma garota maravilhosa? A demolidora da vizinhana?
	Quem disse que ela precisa de um marido?  perguntou, tentando ganhar tempo.
	Eu. Toda mulher precisa se casar para ser feliz. Um marido, dois ou trs filhos... E ela  especialmente boa com crianas.
Aposto que formariam um belo casal.
	Ei, espere um minuto!  ele impacientou-se, deixando a carga no cho e massageando os msculos dos braos.  Acha que eu me casaria com uma mulher s para torn-la completa?
J fui casado. Na verdade, tenho uma filha para criar.
	Melhor ainda. No vai encontrar me melhor que Lucy para essa menina.
	Se ela  to boa assim, por que no est cuidando dos prprios filhos?
Sabia que Lucy e Maude entendiam-se muito bem, mas no podia mudar o rumo das coisas to repentinamente. Comprometera-se com Eloise, e no seria justo abandon-la agora, s vsperas do casamento. Por outro lado... mesmo que fosse a me ideal para Maude, Eloise era magra e mal humorada, caractersticas que sempre detestara numa mulher. E Lucy Borden parecia to suave, to cheia de curvas...
Tarde demais para arrepender-se, Proctor!
- Onde coloco essas coisas?  perguntou, recolhendo os objetos que deixara no cho.
Angie apontou para a porta mais prxima e Jim aproveitou a oportunidade para escapar. Quando voltou  sala, vozes exaltadas discutiam do lado de fora da casa. Ou melhor, uma voz exaltada
discutia, enquanto a outra, mais contida, limitava-se a rebater as acusaes com justificativas serenas e equilibradas.
	Eloise! O que est fazendo aqui?
	Entre outras coisas, meu caro noivo  e parou para respirar fundo.  Ah, deve ser o calor. Alguma coisa est abalando meus nervos. Felizmente o encontrei. Voc prometeu levar-me para velejar, querido, e j est uma hora atrasado  a loira aproximou-se insinuante, baixando o tom de voz.  E como se no bastasse, ainda o encontro na casa da... como costuma dizer, James? A demolidora da vizinhana?  ela riu, como se dividissem um segredo.
	Cuidado, Eloise. Esse tipo de linguagem no  muito comum fora das grandes cidades. A srta. Borden  nossa vizinha.

	 claro que   Eloise respondeu estridente.  E no pense... Lucinda, no ? No pense que no sou grata por ter cuidado de Maude. Uma pessoa da minha idade tem dificuldades para entender as crianas, sabe?  claro que vou aprender, mas acho que preciso de mais algum tempo. Jim e eu somos quase da mesma idade, e por isso nos damos to bem. Talvez seja esse o motivo pelo qual vocs dois no conseguem se entender, querida.
	Talvez. No sabia que era to mais jovem que vocs, mas  provvel que esteja certa.
Irritada, a loira pendurou-se no brao do noivo e sussurrou:
	Ainda temos tempo para um passeio de veleiro, Jim?
	Acho que sim. Onde est Maude?
	No est pensando em...? Sim, onde est nossa garotinha? Vamos nos divertir muito, querido.
	Eloise, onde est minha filha?
- No tenho a menor ideia. Ela recusou-se a almoar e desapareceu.
	Lucy, vou mandar dois dos meus empregados para ajud-la com a mudana. Pode ocup-los durante o resto do dia, se for preciso. A sra. Moore vai passar alguns dias em sua casa? Eu a
conheci quando era... consideravelmente mais jovem.
	Angie vai morar comigo. Ela vivia no Asilo Merit, como deve saber.
Jim afirmou com a cabea e Eloise o arrastou em direo  manso. Bem, isso provava que sabia do que estava falando, Lucy concluiu, cruzando os braos e vendo os dois afastarem-se pela praia. Como tivera coragem de executar a hipoteca de um asilo sem ao menos pensar nos pobres velhinhos? Parecia at feliz!
Os homens chegaram em menos de dez minutos, e duas horas mais tarde o novo quarto de Angie j estava arrumado.
	Ainda faltam alguns detalhes  Lucy comentou, abrindo as portas do armrio. Costumava usar o espao para guardar livros velhos, mas vendera todos os volumes antes do final do ano letivo, e agora havia apenas...
	Maude Proctor!
	Ento essa  a pequena Proctor  Angie sorriu.
	O que est fazendo a?
A garota estava encolhida no fundo do armrio, e havia um brilho determinado em seus olhos.
	Ela est se escondendo  Angie respondeu.  Crianas adoram brincar de esconder. Resta saber... de quem, e por qu?
Maude permanecia em silncio, os olhos fixos na desconhecida.
	No precisa me olhar desse jeito  a sra. Moore riu.  Se eu houvesse sido um pouco mais esperta, hoje seria sua av  e virou-se para Lucy.  Alfred era um homem maravilhoso, e eu... Bem, por volta dos vinte anos de idade, eu era ingnua e tola demais. No fui rpida o bastante, e havia outra candidata ao posto. A candidata da me dele, podemos dizer.
	Mas...
	Minha oponente disse que estava grvida e, naquela poca, s havia uma soluo para esse tipo de situao. Alfred casou-se com ela, e o primeiro filho do casal s nasceu quatorze meses mais tarde. Mesmo assim, eles acabaram se entendendo. Fiquei muito deprimida, mas depois embarquei num cruzeiro para o Caribe e conheci... Ah, mas isso j  outra histria.
	Quer dizer que quase foi minha av  Maude perguntou.
	E isso mesmo, criana. Por que no sai da? Hoje em dia, ningum mais mantm os armrios realmente limpos.
	Sim, saia da  Lucy manifestou-se, tentando demonstrar um mnimo de autoridade dentro de sua prpria casa.  Afinal, do que est fugindo?
	Fgado  Maude fez uma careta.  Fgado e brcolis. Ela queria que eu comesse essas coisas no almoo!
	Pois bem, vou ter de mand-la para casa  Lucy avisou. Seu pai vai ficar furioso comigo se descobrir que a deixei esconder-se aqui.
	Eu no estava fugindo dele. Meu pai  um grande sujeito.
S estava fugindo do fgado... e dela. Alm do mais, no precisamos ter tanta pressa. Acabei de ver o veleiro partindo do ancoradouro.
.  Lucastra? No disse que ainda faltavam alguns detalhes? Por que no deixa essa adorvel criana comigo? Ela pode me ajudar a desfazer as malas.
Droga! Por que estava agindo como uma maluca, aceitando ordens em sua prpria casa e se derretendo toda cada vez que encontrava aquele... aquele vizinho?
Como a pessoa prtica que era, Lucy ignorou as questes incmodas e foi para a cozinha, onde consultou a lista telefnica em busca de nomes de empreiteiros da regio. Enquanto procurava, ouvia as gargalhadas no quarto de Angie. De uma coisa tinha certeza: com uma av como aquela, Maude no teria problemas.

Capitulo IV

O empreiteiro chegou na manh seguinte, uma 'hora depois de John Ledderman apresentar-se com o talo de cheques e a papelada do banco.
	Terrvel o que aconteceu com o Asilo Merit, no?  o funcionrio do banco comentou.  Minha noiva ficou chocada. Felizmente ela foi convidada para trabalhar no Hospital Toby.  como sempre digo: em tudo existe um lado positivo.
	 claro. Onde devo assinar?
	Aqui  ele apontou.
	No concordo com essa histria de sempre haver um aspecto positivo  Henderson interferiu enquanto abria os projetos sobre a mesa improvisada na varanda.  Malditos banqueiros! Arruinaram o pas em 1932, e agora esto tentando novamente.
	Ah, no sei  Ledderman respondeu.  Os banqueiros no so os nicos gananciosos. Todos so culpados. Bem, boa sorte, srta. Lucastra. Tenho certeza de que o dinheiro ser suficiente para...
	Vai precisar de um novo teto  o empreiteiro avisou.
	Mande lembranas para sua noiva  Lucy despediu-se apressada, percebendo que Aquele Homem aproximava-se pela praia com dois de seus empregados.
Tentando evitar o desastroso encontro, segurou no brao do funcionrio do banco e praticamente o arrastou at a frente da casa, onde ele deixara o carro. Quando retornou, o empreiteiro conversava animadamente com Proctor.
Esse lugar  s um monte de areia  Henderson explicava.
	Se no tomar cuidado, sua casa acabar afundando, como todas as outras residncias construdas recentemente. As casas mais antigas, como a da srta. Lucastra, foram erguidas sobre rochas slidas e firmes. E nem pense em comprar uma propriedade do outro lado do canal, porque aquela regio est afundando ainda mais depressa.  como ter um cachorro cavando seu quintal.
	Puxa! Felizmente no tenho um cachorro  Proctor sorriu. 	Apenas uma filha desaparecida  e olhou para Lucy com ar desconfiado.
Atrs dele, os dois homens olhavam em volta como ces perdigueiros.
	Ela sumiu outra vez?  Lucy perguntou com falsa inocncia.
	Outra vez. Por acaso a viu?
	Eu? No.
	Eu j imaginava. Mas a levar para casa se a encontrar, no ?
	Pode ter certeza disso.  para isso que servem os vizinhos. Haver algum em casa?
	Sim, o dia todo. Fico feliz por saber que decidiu melhorar o aspecto de sua casa. No imagina o bem que est fazendo a todos ns, seus vizinhos. Conseguiu um emprstimo em algum banco?
	Sim, consegui.
	Teve muita sorte. Tenho impresso de que essa coisa vai desmoronar, sabe?
	Minha casa?
	Meus negcios. Que banqueiro teve coragem de emprestar algum dinheiro em troca dessa garantia? Sua casa ...
	Tenho meus trunfos  ela o interrompeu.
	Tenho certeza que sim  Jim sorriu, olhando para os seios delineados pelo vestido fino.
	No estou falando disso! E no seja atrevido, sr. Proctor! Ser que uma garota no pode ter um pouco de paz nem mesmo em seu prprio quintal?
	No. Quero dizer... sim. Sim,  claro. Algum jovem chefe de departamento deve estar prestes a fazer carreira por causa desse emprstimo. Ou perder o emprego. Bem, foi um prazer encontr-lo novamente, Henderson. Faa um bom trabalho em troca do dinheiro da moa  e partiu.
	Em troca do seu dinheiro  Lucy resmungou aliviada.
	Proctor  um bom homem  Henderson comentou.  Quanto ao telhado...
Bom homem? Vasculhando a praia com dois guarda-costas que mais pareciam cruzadores em busca do inimigo? Bom para qu? As imagens que invadiram sua mente a fizeram envergonhar-se de si mesma.
	Srta. Lucy?
	Sim? Ah, o teto  ela suspirou, pensando em todo o dinheiro depositado em sua conta, no banco daquele maldito sujeito.  Sim, conserte o telhado, sr. Henderson. E vamos precisar de mais um banheiro no andar de baixo.
	Isso vai custar muito dinheiro.
	Faa tudo o que for necessrio. Dinheiro no  problema. Especialmente quando o dinheiro  de outra pessoa. E quando essa pessoa descobrir...
	Fique tranquila, srta. Lucy. Vou fazer todos os reparos necessrios. Na verdade, sempre soube que os Borden tinham uma fortuna escondida em algum lugar. Ao trabalho, rapazes!
Angie Moore sorriu ao ver Lucy entrar na sala.
	Hoje em dia os engenheiros no se preocupam com coisas importantes. Antigamente, todas as casas tinham janelas voltadas para o sul para permitir a entrada do sol no inverno.
	 verdade, Angie. Sabe se Maude est escondida em algum armrio? No, no me diga! No quero saber.
	Parece que passa mais tempo preocupando-se com ele do que com qualquer outra coisa. E aquele telefone est tocando desde que acordei.
	Ele? De quem est falando?
	O vizinho. Perdeu a filha outra vez, no ?
	Sim, e somos as principais suspeitas. Ele veio at aqui com seus capangas mal encarados. Acredita que existem oito pessoas trabalhando naquela casa? Oito pessoas, e no conseguem controlar uma criana!
	E realmente impressionante. Bem, ela chegou dizendo que precisava ir ao banheiro com urgncia. No podia mand-la embora.
	No quero saber. Disse que o telefone havia tocado?
	Vrias vezes. As pessoas esto ligando para saber sobre o anncio que colocou no jornal. Aquele a respeito do clube de natao. Anotei todos os nomes e telefones dos interessados. Os recados esto sobre a mesa, ao lado do aparelho. Sabe de uma coisa? Estou feliz por aquela droga de asilo ter fechado. H anos no me divirto tanto.  bom poder ocupar o tempo, sabe?
	Posso imaginar.  melhor tomarmos cuidado para evitar encontros com o vizinho, Angie. No quero encrencas com ele, e se sua filha estiver... No, no quero saber.
	No quer encrencas com Proctor, Lucy Borden. No sabe que  feio mentir?
	No estou mentindo. Ele... Eu...
	No tente lutar contra um sentimento to bonito. O amor  a melhor coisa da vida, e Jimbo  um bom homem.
	Jimbo?
	Era como toda a vizinhana o chamava quando tinha cinco anos de idade. Hoje em dia no se v mais essas demonstraes de carinho entre vizinhos.
	No estou apaixonada por esse sujeito  Lucy falou com voz clara, devagar, como se costuma falar com crianas pequenas ou adultos idiotas.
	Isso  o que voc diz.
	No estou! Por acaso j esteve apaixonada para afirmar com tanta certeza?
	 claro que j me apaixonei. Vrias vezes! Mas no meu tempo ningum vangloriava-se de suas experincias amorosas, querida. Uma moa tinha de tomar muito cuidado com sua reputao. E ento, o que vai ser? Vai correr dele, ou para ele?
	Vou... me esconder. Serei a proprietria de um prspero clube de natao, e no terei tempo para pensar em bobagens. Lucy concluiu, indo examinar os recados deixados sobre a mesa do telefone.
	Isso mesmo, corra e esconda-se. As mulheres faziam a mesma coisa em minha poca, e sempre se arrependiam.
Perturbada, Lucy foi trancar-se no banheiro e parou diante do espelho para dar vazo  raiva.
	Maldito homem!  explodiu.
	Est falando de meu pai?  Maude perguntou, abrindo a cortina da banheira.  Ele j foi?
	Maude Proctor!
A cortina fechou-se imediatamente.
A culpa  sua, Lucy Borden. Se no houvesse sido to maternal, nada disso estaria acontecendo. Devia ter tratado essa criana com firmeza e distanciamento. Maternal!
De qualquer fornia, era intil assustar a pobrezinha, agora que o mal estava feito.
Com delicadeza, abriu a cortina e a viu encolhida num canto da banheira, tremendo.
	No precisa ficar to apavorada, Maude. Ningum vai devor-la.
	No? Como pode saber?
	Maude, pare com isso. Vamos, saia da imediatamente.
	No vou voltar para l. Nunca!
	E onde vai morar?
	Pretendia ficar aqui, mas agora vejo que  to cruel quanto eles e todos os adultos. No sei o que vou fazer, mas no porei mais os ps naquela casa.
O estado emocional da menina era lastimvel, e Lucy trabalhara com crianas o suficiente para saber que devia haver algo de muito grave por trs de tanto pavor.
	Maude, o que aconteceu?
	Nada  ela respondeu, cruzando os braos e apoiando as costas na parede.
	Brigou com seu pai?
	Tentei conversar com ele, mas papai no quis ouvir.
A camiseta parecia aderir ao seu corpo rolio, e havia um odor estranho e forte no banheiro.
	Tentou conversar com ele sobre o qu?
	Por que quer saber? No pode fazer nada! Ele nem gosta de voc!  e abaixou a cabea, tentando esconder as lgrimas. Lucy tentou abra-la, mas Maude conseguiu saltar da banheira e correr para perto da porta.  Isso  mentira. Ele gosta muito de voc.
	Maude, tire a blusa.
	No!
	Tire essa camiseta, ou serei obrigada a tir-la por voc!
	No teria coragem... teria?
	Vai descobrir num minuto.
	No, no!  que... est apertada.
	Nesse caso, talvez precise de ajuda.
Resignada, Maude deixou que ela a despisse e no tentou resistir quando Lucy a fez virar-se de costas, intrigada com a maneira como o tecido parecia aderir  sua pele. E aquele cheiro...
Finalmente conseguiu livr-la da camiseta molhada e tirar suas prprias concluses.
	Meu Deus! Quem fez isso?
As costas de Maude haviam sido ensopadas com um lquido viscoso cujo aroma a fazia lembrar... Seu av! E aquele maldito copo de conhaque que parecia grudado em sua mo.
	Quem fez isso? Seu pai?
	Meu pai jamais seria capaz disso!
	Ento, quem foi?
Maude ergueu o queixo e Lucy percebeu que no obteria uma resposta. E nem era necessrio. O sangue dos Borden fervia em suas veias exigindo ao imediata. Se Proctor no era o responsvel por essa crueldade, restava apenas uma possibilidade.
Sem pensar em mais nada, jogou uma toalha sobre as costas da menina e puxou-a pela mo.
	Venha comigo.
	Meu Deus!  Angie exclamou quando passaram por ela.
 Que cheiro  esse? Parece que estou num bar de quinta ca
tegoria!
	Ainda no viu nada!  Lucy respondeu, pensando nas horrveis brigas que normalmente aconteciam em bares como o que ela mencionara.
Na varanda, Henderson a interceptou com ar preocupado.
	Algum problema, senhorita?
	Nenhum... por enquanto.
	Se precisar de ajuda, no hesite em me chamar.
	Talvez mais tarde  ela disse, examinando os msculos de seu brao antes de seguir em frente.
	No quero entrar naquela casa  Maude avisou ao passarem pela rocha que limitava as propriedades.
	Lamento, mas dessa vez terei de contrari-la. E  melhor continuar andando. Ou prefere que ele a veja sendo arrastada como se fosse Ruprecht?
	Papai vai ficar furioso. Absolutamente enlouquecido! E no quero v-lo nesse estado. No quero!
	Ele merece  Lucy gritou, respirando fundo para contro lar-se.  Pare de chorar, Maude. Voc precisa ser forte.
	Preciso? No sei por qu.
 Porque no pode crescer com medo do mundo! Vamos, comece a andar ou vou ter de arrast-la.
Temendo a humilhao, Maude acompanhou-a at a porta da casa, onde um segurana as recebeu com um sorriso.
Ei, voc a encontrou!
Encontrei, mas aposto que seu patro no vai ficar to contente. Abra essa porta!
O guarda mal teve tempo de afastar-se antes que ela passasse como um furaco.
O interior da manso era silencioso como um santurio.
Onde esto todos?  ela gritou.
Uma porta se abriu no final do corredor entre a cozinha e a sala e ele apareceu, as mangas das camisas dobradas at os cotovelos.
	Ei, o que est acontecendo aqui? Ah, srta. Proctor...
Trmula, Maude escondeu-se atrs de Lucy.
	O que posso fazer por voc, cara vizinha?
	Em primeiro lugar, pode chamar a polcia. E em segundo, deixe de bancar o engraadinho. Em terceiro lugar, trate de me chamar de srta. Borden.
	Uma lista respeitvel, no?
	Chame a polcia, seu... seu monstro!
Srio, Jim fez um sinal para um dos seguranas e o mandou  sala ao lado, onde havia um telefone.
	Ser que pode me explicar o que est acontecendo?
	Acho que terei de chamar a polcia sozinha.
	 melhor sentar-se naquela cadeira e comear a falar de uma vez!  ele explodiu.
Consciente da inutilidade de tentar enfrent-lo fisicamente, Lucy foi sentar-se em uma das poltronas de couro e respirou fundo.
	Agora que est mais calma, ser que pode me dizer o que est acontecendo por aqui? Encontrei a casa mergulhada no caos!
	Jogar lcool numa criana  considerado abuso. E crime!
	De que diabos est falando?
	Ah, voc a encontrou!  Eloise exclamou do alto da escada, descendo devagar.
Os altos provocavam um rudo irritante contra o piso de mrmore, e o robe de seda transparente lhe conferia uma aparncia vulgar. E ela segurava uma bolsa de gelo sobre um olho.
	Elas acabaram de chegar  Proctor informou.  Devia ter ficado no quarto, Eloise. Sente-se melhor?
	Por que no manda esse monstro para um colgio interno?
E o que essa mulher est fazendo aqui?
	Ela veio trazer Maude  Jim explicou com pacincia, estendo o brao para ampar-la.
	Meu olho est inchando, e temos aquele jantar dos Cartwright esta noite. Precisa fazer alguma coisa, James!
	Vou fazer. Sente-se ali, Eloise. Chamarei o mdico num minuto. Ele cuidar de seu olho.
	Duvido! Lucy interferiu irritada.  Nenhum mdico atende chamadas a domiclio s por causa de um olho inchado.
No quero saber sua opinio. Mande-a embora, James!
Srta. Borden, agradeo por ter trazido minha filha de volta. Poderamos falar sobre o assunto mais tarde? Minha noiva, Maude e eu precisamos ter uma pequena reunio familiar. Importa-se de nos dar licena?
	 claro que me importo! No vou sair daqui enquanto no esclarecermos tudo isso!
	Ora, francamente!  Eloise gritou.  Quem voc pensa que ?
	Apenas uma vizinha que vai ficar aqui at a polcia chegar.
	Por favor  Maude soluou.  No quero que ele fique nervoso.
	Levante a cabea!  Lucy a instruiu.  Vai ter de aprender a defender-se, antes que seja tarde. Sr. Proctor, por que jogou bebida alcolica nas costas de sua filha?
	E no olho, tambm  a pequena interferiu.  Est ardendo muito!
	Eu joguei bebida em minha filha?
	Exatamente! Isso  crime, sabe?
	Que diabos est dizendo, sua maluca?
	Oh, no!  Maude exclamou apavorada.  No foi ele!
-- Fique fora disso, mocinha! Vou me entender com seu pai de uma vez por todas!
	 pouco provvel, srta. Borden. E quero saber o que aconteceu com o olho de Eloise!
	Eu... dei um soco no olho dela  Maude confessou.
	Est vendo?  Eloise gritou.  Ela confessou!
	Espere um minuto. H algo estranho nessa histria  ele indicou, aproximando-se da filha e ajoelhando-se diante dela. Por que agrediu sua tia?
	Porque ela queria me obrigar a comer um monte de verduras. Eu me recusei, e ela jogou aquela bebida horrvel em minhas costas. O conhaque respingou em meu olho, e quando vi que ela estava enchendo o copo novamente, bati nela para poder escapar. Corri para a casa de Lucy e...
	J chega!  Proctor trovejou, levantando-se como se quisesse matar algum.
Pronto! Conseguira alcanar o objetivo. Lucy sempre soubera que, ao acus-lo, obrigaria a menina a revelar a verdadeira histria.E agora que a madrasta malvada havia sido desmascarada, tinham "de fazer alguma coisa por Maude.
O olho dela est vermelho, sr. Proctor. Acho melhor chamar um mdico.
Nesse momento um dos seguranas entrou na sala e avisou:
	O Doutor Walters chegou.
	Mande-o entrar  Jim ordenou.
Depois de um exame minucioso, o mdico concluiu:
	Vai precisar de uma bolsa de gelo para conter o inchao, mocinha. E essas plulas, caso haja alguma inflamao. Se isso foi um acidente, algum precisa ter mais cuidado. Se no foi um acidente, vou ter de relatar o fato  polcia.
	Foi um acidente, doutor  Proctor afirmou.  Vou tomar providncias para que no volte a acontecer. Obrigado por ter vindo.
	Mas... ele no vai examinar meu olho?  Eloise perguntou indignada.
Jim Proctor virou-se como se s ento tomasse conhecimento de sua presena. Depois de fit-la por alguns instantes, balanou a cabea e disse:
	Adeus, Eloise.
	Mas... o que est dizendo? Vamos nos casar dentro de alguns dias...
	Adeus, Eloise. Nunca agredi uma mulher em toda minha vida. No me faa ir contra a educao que recebi.
	Voc  um idiota! Quer saber de uma coisa? No queria mesmo me casar com um homem como voc! S estava interessada em seu dinheiro!
	Adeus, Eloise  ele repetiu, fazendo um sinal para o segurana que aguardava junto  porta.
Obediente, o homem aproximou-se e segurou-a pelo brao, arrastando-a para fora sem importar-se com seus gritos e ofensas.
A menina precisa descansar  o mdico lembrou.  E  bom que algum fique com ela para o caso de alguma emergncia.
Eu cuido disso  Lucy avisou, levando Maude para o quarto.
Proctor deixou-se cair numa cadeira e enterrou o rosto entre as mos.
	Como pude cometer um erro to terrvel?
	Acontece  o mdico sorriu.  E agora, se puder me explicar alguns detalhes... Preciso fazer um relatrio.
	J no di tanto depois do remdio  Maude comentou com voz sonolenta, deitada de costas na cama que ocupava o centro de seu quarto.
	Lembre-se de no esfregar os olhos.
	Vou me lembrar. Estou muito feliz por estar aqui comigo, Lucy. Tive tanto medo! Acho que nunca vi meu pai to zangado em toda minha vida. Voc foi corajosa!
	Quer saber um segredo? Fiquei com tanto medo que no consegui fugir. Minhas pernas no obedeciam! Est com fome?
No houve resposta. A menina havia adormecido sob o efeito do remdio. Aliviada, Lucy arrastou uma poltrona para perto da janela e acomodou-se. Havia sido um dia longo e cansativo, e acordara muito cedo para receber o funcionrio do banco e o empreiteiro. A tenso emocional unira-se ao cansao, e agora sentia-se incapaz de manter os olhos abertos. Estava quase adormecendo quando a porta se abriu e Jim Proctor entrou.
	Ela est dormindo  Lucy sussurrou.
	Eu sei. Preciso falar com voc.
	Por favor, desculpe-me. Sabia que no havia agredido sua filha, mas precisa for-la a revelar a verdade.
	Entendo  ele suspirou, sentando-se na cadeira prxima  dela.  Tentei proteg-la. Realmente, era s isso que eu queria.
	Eu sei que sim  Lucy sorriu, pousando a mo sobre seu pulso num gesto de solidariedade.
	A me dela era um horror. Pensei que pudesse cuidar de Maude sozinho, mas ento as coisas comearam a acontecer...
	Coisas?
	No vero passado, os bancos tiveram prejuzos imensos. Meu irmo sofreu um esgotamento nervoso e tive de assumir a presidncia para tentar salvar o negcio da famlia.
	Est querendo dizer que... que no  realmente um banqueiro?
	No. Meu pai administrava o negcio, e meu irmo mais velho seguiu seus passos. Graas aos dois, tive tempo e dinheiro para viver como bem entendia, percorrendo o mundo a bordo de navios e trabalhando como piloto de provas de avies. E me envolvendo com as mulheres erradas,  claro.
	Est falando de sua esposa?
	Principalmente. Quando ela percebeu que eu no era to rico quanto imaginava, simplesmente fez as malas e partiu. No
meio do inverno, com neve at os joelhos. Foi direto para a ponte do Rio Penobscot. O relatrio da polcia dizia que a concentrao de lcool em seu sangue era duas vezes maior que o limite normal.
	E Maude? No ficou ferida?
	Minha esposa nunca se preocupou com a filha. Quando decidiu partir para ir  festa dos amigos num hotel de inverno, sem saber que jamais chegaria ao destino, ela simplesmente abandonou a menina em nossa casa, em Newton.
	Meu Deus!
	Naquela noite cheguei tarde, como de costume, e a encontrei encolhida dentro do armrio, abraada ao urso de pelcia e tremendo. Desde ento, Maude tem pavor do escuro. No vou permitir que ela sofra novamente, Licy. Nunca! Jamais pensei que Eloise fosse capaz...

	No pense mais nisso. A culpa no foi inteiramente sua.
	Preciso pensar nisso. Tenho certeza de que meu plano era perfeito, entende? Escolhi a mulher errada, s isso. Terei de ir a Washington no final do ms para uma srie de reunies importantes sobre o sistema bancrio. Parece que vamos mesmo desmoronar. O problema dos emprstimos parece crescer a cada dia!
Lucy afirmou com a cabea como se dominasse o assunto.
	E ento, o que acha?  ele perguntou.
O que achava? Devia ter perdido parte da conversa.
	Eu... no sei. O que acha sobre o qu?
Proctor levantou-se e inclinou-se diante dela, as mos apoiadas nos braos da cadeira.
	J disse, Lucy. Preciso proteger Maude, mas estamos passando por uma crise no setor bancrio e tenho de participar de uma srie de reunies no Departamento do Tesouro. Tinha certeza de que daria certo. Eu me casaria com Eloise, ela cuidaria de Maude, e talvez pudssemos at aumentar a famlia. Mas agora entendo que s poderia ter dado certo se Eloise fosse bondosa como voc. Quase me casei com uma maluca! Outra maluca.  isso.
	Isso?
	Sim, isso.
	Eu...
	Est tudo resolvido, Lucastra Borden. A igreja reservada, as flores encomendadas e os convites distribudos. Dentro de dez dias, s onze da manh de uma tera-feira, nos encontraremos na Igreja da Congregao. Sabe onde fica?
	Fao parte da parquia h dezesseis anos.
	timo  e deu alguns passos em direo  porta.
	O que  timo?  ela o seguiu.
	Acho que j expliquei tudo, Lucy.
	Pois eu acho que perdi parte de sua explicao  ela inquietou-se, fechando a porta do quarto de Maude e seguindo-o pelo corredor.  O que tenho a ver com toda essa histria?
Proctor virou-se e fitou-a com ar atnito.
	Ora, voc  responsvel por toda essa confuso. Por isso, vai se casar comigo e cuidar de minha filha. E agora que j entendeu tudo, ser que pode largar meu brao? Preciso voltar para o escritrio. Ainda tenho muito trabalho pela frente.
Constrangida, Lucy soltou-o e permaneceu onde estava, boquiaberta.
Assim que Jim Proctor desapareceu alm da escada, Lucastra Borden cruzou os braos sobre o peito e respirou fundo. Ento ele achava que podia obrig-la a se casar, e dentro de dez dias?
O inferno teria de congelar antes desse matrimnio, sr. Proctor!

Capitulo V

	Ol , srta. Borden  o empreiteiro chamou ao v-la chegar em casa.
	Ol, Henderson. Tudo bem?
	No exatamente. Temos outro problema e vamos precisar de...
	No diga! Mais dinheiro?
	Exatamente. Encontramos cupins sob a varanda, e vamos ter dex arrancar todo o piso de tbuas paia mat-los. S depois poderemos construir a rampa de acesso que pediu para a cadeira de rodas daquela simptica senhora. O trabalho dever custar cerca de... quatro mil dlares.
	E no temos essa quantia?
	No.
	O dinheiro parece escorrer das minhas mos como gua!
No h outra maneira de resolver o problema?
	No.
H duas semanas teria desmaiado se algum lhe pedisse quatro mil dlares. Agora... o que representavam quatro mil diante dos vinte mil que j pedira emprestado? Certamente podia obter mais algum dinheiro. Talvez no devesse ter comprado aquele maio. Cinquenta e cinco dlares por um pedao de pano que s podia usar para nadar?
Mas o maio era lindo, e a compra elevara seu moral.
Descala, sentindo a areia da praia sob os ps, virou-se e olhou para onde a casa daquele homem erguia-se imponente, banhada pelo sol da manh. Casamento? Que tipo de idiota pensava que era? Ia fazer mais um emprstimo em seu banco, isso sim! J era hora de Proctor descobrir que esposas podiam ser caras.
A ideia era to deliciosa que Lucy no esperou nem mais um minuto para entrar em contato com John Ledderman.
	Mais dinheiro?  Angie perguntou assim que sentaram-se na cozinha para uma xcara de ch.
	Mais dinheiro. Felizmente, o responsvel pelo departamento de emprstimos no parece preocupado. A propsito, ele perguntou por voc. Soube que no estava muito bem de sade e mandou recomendaes.
	Quanta gentileza. E... que coisa mais estranha. No conheo esse tal John Ledderman. Ser que ainda existem alguns poucos cavalheiros nessa gerao mais jovem?
	Se existem, no os conheo  Lucy riu, antes de mudar de assunto.  Se tivesse coragem, tomaria emprestado todo o dinheiro daquele banco e depois riria quando ele viesse receber o pagamento.
	Ele?
	Voc sabe. Jim Proctor. Jimbo.
	Anda pensando muito no sr. Proctor, no? Qual  o problema? Ele  parecido com Mark?
	Deus, no! Ele no  nada parecido com Mark. Mark era mais alto e magro... e muito mais educado. Um cavalheiro, entende?
	E Jimbo?
	Forte, musculoso... e grosseiro, s vezes.  E mais poderoso e direto. mark podia ser bajulado. Proctor jamais se deixaria envolver por amor ou dinheiro.
	Entendo. Jim  mais forte, e mesmo assim est disposta a provoc-lo. No acha que vai se meter em encrencas, Lucy?
	Tenho certeza disso, e no sei como evitar. Proctor insiste em dizer que vai se casar comigo. O que se pode fazer com um homem to obstinado? Estou cansada de repetir que esse casamento no vai acontecer, e ele simplesmente ri. Bem, no posso pensar nisso agora. As meninas devem estar chegando para a primeira aula de natao.
	Quantas so?
	Quatorze. E Maude,  claro.
	Ele sabe disso?
	Acho que no, mas no  da conta dele, ?
	De certa forma, sim. Est adaptando a casa ao novo negcio com o dinheiro de Jimbo, mesmo que ele no saiba.
	Dinheiro emprestado no tem dono  Lucy insistiu.  Emprestado legalmente! Acha que esse maio  muito ousado?
	De jeito nenhum! Se tivesse quarenta anos a menos, eu mesma o compraria. Ah, as meninas esto chegando.
	L vamos ns  Lucy suspirou.
Sorrindo, recebeu as alunas na varanda, apresentou-se e explicou as regras do clube. Nenhum dos pais demonstrou inteno de inspecionar o local. Na verdade, duas das garotas foram simplesmente deixadas pelos motoristas.
s nove e meia, depois de dividi-las em grupos de acordo com os conhecimentos, Lucy mandou-as para dentro da gua e comeou a primeira aula.
A manh passou depressa. s onze e meia, quase todas as meninas estavam deitadas na areia, sem flego. O novo banheiro ainda no estava pronto, e por isso Lucastra achou melhor mand-las para casa sem banho. A casa parecia trepidar com o barulho que faziam. Na verdade, toda a vizinhana podia ouvi-las. Mas, para Lucy, as vozes estridentes e exaltadas eram como uma doce melodia. Quando despediu-se da ltima aluna, j havia feito alguns clculos mentais e sentia-se eufrica.
	Quinze dlares semanais por cada uma delas  disse, os olhos brilhantes fios no rosto de Angie.
	Duzentos e dez dlares semanais no total  a sra. Moore concluiu depressa.
	Uau! Acho que vou gastar um pouco desse dinheiro!
	 melhor esperar at saber o valor da prestao que ter de pagar ao banco.
	Prestao? Imagine! Mal acabei de pegar o dinheiro em prestado!
	E assim que funciona, meu bem.
Desencantada, Lucy foi tomar uma ducha e vestir algo mais prtico. Maude j estava no chuveiro, cantando.
	Guarde um pouco de gua quente para mim,  Lucy pediu, batendo na porta com firmeza.
O rudo do chuveiro cessou imediatamente e a cabea de Maude apareceu na soleira.
	No temos gua quente  ela informou.  O sr. Henderson disse que...
	Vou conversar com ele pessoalmente.
Maude voltou para o chuveiro e Lucy desceu  procura do empreiteiro. Angie estava no telefone da cozinha.
	Algum problema?
	Nenhum. Recebi o cheque da aposentadoria e apostei algum dinheiro em Aqueduct.
	Ganhou alguma coisa?
	Calma, Lucy! O terceiro preo est apenas comeando! O cavalo ainda nem entrou na pista!
Balanando a cabea num gesto desanimado, Lucy foi para a varanda, onde Henderson comia um sanduche sentado no ltimo degrau da escada.
	No precisa interromper seu almoo  ela indicou, sentando-se a seu lado.  O que aconteceu com a gua quente?
	Tive de retirar o reservatrio. Instalaremos o novo tanque dentro de dois ou trs dias. Foi o maior que pude encontrar nessa regio. Be, se me desculpa, senhorita, tenho de voltar ao trabalho.
	Eu tambm  Lucy resmungou, levantando-se para ir buscar o ancinho na garagem.
Numa nica manh, as meninas haviam conseguido acumular pilhas de folhas e outros detritos naturais na praia.
Por volta de duas da tarde, Maude apareceu e desculpou-se.
	No vai acreditar, mas acabei adormecendo. No sei por que estava to cansada!
	No faz mal  Lucy sorriu, indicando um ancinho menor.
 Agora que j descansou, o que acha de me ajudar um pouco?
Maude sorriu e lanou-se ao trabalho. As quatro da tarde Jim Proctor apareceu. Usava um short velho e desbotado e uma camiseta igualmente antiga.
Trabalhando duro?
	Oh, no!  Lucy respondeu, endireitando as costas e gemendo de dor.  Na sociedade moderna, todo o trabalho duro  responsabilidade dos homens.
	No pode estar falando srio!  Maude interferiu.
	No, mas seu pai acredita nisso.
	Ei, espere um minuto  ele ergueu as mos num gesto de defesa.  No ponha palavras em minha boca, mocinha! Vim at aqui apenas para elogiar seu novo maio, e no vou tolerar agresses. Desistiu do biquini?
	Desisti. No aprovo o exibicionismo.
	Entendo. E por que tanto cuidado com a limpeza da praia?
	Agora temos uma escola de natao!  Maude revelou com entusiasmo.
	Escola de natao?
	Exatamente  Lucy admitiu.  Reuni um pequeno nmero de estudantes e estou dando aulas. Preciso de dinheiro.
	Dinheiro? Espero que no esteja cobrando pelas aulas. No... voc no seria to estpida.
Lucy sentiu um estranho arrepio. Teria perdido alguma coisa? Como ele podia saber a extenso de sua estupidez?
	O que h de errado em cobrar por servios prestados?  perguntou, tentando esconder o desconforto.
	Normalmente nada. Mas esta rea  estritamente residencial, o que significa que no se pode manter nenhum tipo de negcio por aqui. A no ser que consiga uma licena do conselho municipal.
	Isso  bobagem! No se pode dar aulas de natao a menos que se esteja perto da gua. A escola tem de funcionar  beira mar  Maude interferiu.  Qual  o problema, Lucy? Por que est to plida?
	De repente sinto-me indisposta  e correu para dentro de casa.
Maude e o pai ficaram parados na praia, balanando as cabeas.
	Ela trabalha demais  a menina comentou.
	J percebi  Proctor respondeu, segurando a mo da filha e levando-a para casa.
Enquanto isso, Lucy passava pela cadeira de rodas como um furaco a caminho do banheiro, onde passou os quinze minutos seguintes.
	Algo que comeu?  a sra. Moore perguntou ao v-la no vamente na cozinha.
	Algo que ouvi. Ele disse... oh, Deus, no quero lembrar, ou vou passar mal novamente. O que acha de um frango assado para o jantar?
Depois de cumprir todas as obrigaes de uma boa dona de casa, Lucy levou a amiga para o quarto, ajudou-a a deitar-se e tomou um banho frio. Usando um vestido de alas e tecido fino, foi dar um passeio pela praia para pensar em seus problemas e tentar encontrar solues.
Depois de uma longa caminhada, sentou-se na rocha que servia de limite entre sua casa e a do vizinho e ficou apreciando a beleza da lua cheia, deixando-se hipnotizar pelo ritmo cadenciado das ondas.
No tinha a menor ideia de quanto tempo havia se passado. Estava comeando a sentir o frio da noite, mas uma espcie de torpor a impedia de levantar-se e voltar para casa. E foi justamente nesse momento que sentiu a aproximao de algum. No ouvia os passos silenciosos sobre a areia macia, mas sentia a presena s suas costas. De repente foi envolvida pelo calor de alguma coisa em torno de seus ombros e virou-se devagar. Um palet masculino. Encolhendo-se para desfrutar do calor agradvel, sentiu o brao que a envolvia e deixou-se invadir pela sensao de conforto e proteo.
	Lucastra?
	 claro que sou eu. Sabe muito bem que no h outra garota num raio de trs quilmetros. Jim?
	Quem poderia estar praticamente dentro de sua propriedade, abraando-a?  e estreitou o abrao, percebendo sua inteno de afastar-se.  Relaxe.
Era uma ordem, e Lucy no estava habituada a obedec-las. Mas a noite era especial, e de repente sentiu vontade de relaxar. Jim olhava para as estrelas com ar de admirao.
	Uma beleza.
	Sim, so lindas  ela concordou, apoiando a cabea em seu ombro para apreciar o cu.
	Estou falando de voc, Lucastra.
O elogio inesperado provou um estranho desconforto. Lucy tentou afastar-se, mas o brao sobre seus ombros parecia de ao.
	O que foi? Nunca foi elogiada por sua beleza?
	Depois que vov morreu, nunca.
	J esteve apaixonada?
	No recentemente. Apaixonei-me por Harry Tilman, mas foi s uma paixo passageira.	
	Harry Tilman? Ele mora por aqui?
	Como posso saber? No o vejo desde que terminamos o curso primrio.
	Nesse caso, acho que no preciso me preocupar  e tocou seu queixo com a ponta do dedo, obrigando-a a erguer a cabea para receber o beijo delicado.  No suporto competio, sabe?
	Competio? No sei do que est falando!  Sabia, mas preferia fingir-se confusa. E jamais falaria sobre Mark!
	Otimo. Vamos manter as coisas como esto  Jim sorriu, movendo uma das mos para afagar seus cabelos.
	E voc? J esteve apaixonado?
O silncio que seguiu-se foi to prolongado, que Lucy sentiu vontade de sair correndo e esconder-se. Como fora capaz de formular uma pergunta to estpida? Proctor havia sido casado! Tinha uma filha! O que esperava que respondesse?
	Eu acreditava que sim  ele disse em voz baixa, como se falasse s para si.  Mas agora acho que no. Foi um terrvel engano. Ela queria uma vida totalmente diferente daquilo que eu desejava para mim.  horrvel dizer isso, mas quando tudo acabou, a nica que senti foi um imenso alvio.
Lucy respirou fundo e levantou-se.
	Lamento ter tocado num assunto to doloroso. Bem,  tarde, minhas alunas estaro aqui bem cedo para a aula de natao e...
No sabia o que pretendia dizer. Jamais saberia, porque o beijo simplesmente baniu todos os contedos de sua mente, enchendo-a apenas com aquela sensao deliciosa e quente. Era como se os nervos respondessem a uma infinidade de estmulos simultneos, acionando todos os sentidos de uma s vez. Como se o cu se iluminasse...
Proctor afastou-se ofegante.
	Que diabos foi isso?  perguntou.
Lucy conseguiu abrir os olhos. O cu havia realmente brilhado. Alm do porto, algum enviou mais um sinal de luz.
	 s um farolete  ela explicou.  A Guarda Costeira est conduzindo um treinamento noturno.
	Gostaria de matar todos eles.
Lucy tambm gostaria.'Lentamente, com requintes de crueldade. Onde estavam? O que havia acontecido? No sabia que um beijo podia ser to perigoso  sade.
	Voc est tremendo  ele constatou.
	Sim, eu... Est ficando frio. Acho que  melhor entrar. Preciso preparar- algumas coisas para amanh.  E pensar no que estava sentindo antes de falar novamente com esse homem.
 Boa noite.
Sem esperar para saber qual seria sua reao, Lucy entrou e correu para o quarto, onde passou o resto da noite virando-se na cama.
Quanto a Jim Proctor, percorreu toda a extenso da praia duas ou trs vezes at certificar-se de que ela no voltaria, resmungou meia dzia de palavres e foi para a cama. Onde tambm passou a noite virando-se de um lado para o outro.
No quinto dia de funcionamento do clube de natao, um carro de polcia parou diante da casa justamente no instante em que Lucy coordenava a disputa de nado de peito.
	Lucy  a sra. Moore chamou da varanda, onde j podia ir sozinha graas  nova rampa de acesso.  H um policial aqui e ele insiste em... Oh!
Um homem alto e uniformizado havia contornado a casa e entrava na praia. Lucy deu algumas instrues s alunas mais velhas, que tambm atuavam como monitoras, e foi atend-lo.
	Quer falar comigo, oficial?
	Se for a proprietria deste lugar...
	Sou, por enquanto.
	Por enquanto?
	At o banco decidir executar a hipoteca. Tive de fazer um emprstimo para... Bem, isso no importa. Qual  o problema?
	 verdade que est dando aulas de natao em seu quintal?
 Sim, mas infelizmente no pode participar do grupo, porque s aceito meninas.
	No estou interessado em fazer parte do grupo. Tem algum lucro com as aulas?
	 difcil dizer. Era o que pretendia, mas ainda no tive nenhum lucro, e estou comeando a desconfiar que no verei a cor do dinheiro at o final da estao.
	Acho que no entendeu, senhorita. Quero saber se cobra pelas aulas de natao.
	 claro que sim! Mas no o suficiente, receio.
Maude havia sado da gua para ouvir a conversa e agora gritava e acenava para algum em sua casa.
	Tem licena para operar comercialmente nesta rea, senhorita?
	Licena? Por favor, pare de me chamar de senhorita. Meu nome  Lucy Borden.
	Eu sei qual  o seu nome... senhorita. Voc estudou com meu irmo.
	 mesmo? Quem era...?
	Escute aqui, senhorita, no vim  sua casa para uma reunio social. Tem licena para operar comercialmente numa zona residencial? Recebemos uma queixa.
Lucy encarou-o em silncio. Sabia que soltar o cachorro em cima de um policial era ilegal. Alm do mais, no tinha um cachorro para soltar. Mas se oferecesse alguns dlares... No. Preferia pagar a multa.
	Afinal, o que significa tudo isso?  perguntou, fingindo no compreender a situao.
	Significa que tenho o dever de adverti-la. Est violando a lei de zoneamento municipal, e vai ter de fechar sua escola. Se quiser apelar, pode enviar uma solicitao de licena em carter extraordinrio para o conselho da cidade.
	Acha... que no posso continuar dando as aulas de natao at a prxima reunio do conselho? Sei que ainda vai demorar algum tempo e... no?  O policial estava balanando a cabea.  Aposto que seu irmo seria mais tolerante.
	Meu irmo?
	Aquele que estudou comigo.
	Ah, sim. Talvez. Infelizmente ele est na Arbia Saudita, cavando poos de petrleo.
	No posso nem concluir a aula desta manh? Falta somente uma hora.
	Pode terminar sua aula. Mas passarei novamente por aqui s duas da tarde, e  melhor que no haja nenhuma aluna na gua.
	Sim, senhor.
Gostaria de dizer muitas outras coisas, todas grosseiras e inadequadas a uma mulher bem educada, mas o policial olhava por cima de seu ombro como se algo chamasse sua ateno.
	Algum problema?  Uma voz masculina e firme perguntou s suas costas.
Sobressaltada, Lucy virou-se e viu aquele sorriso irritante nos lbios de Jim Proctor.
	No. Voc no  gemeu.
Todas as meninas reuniram-se num semicrculo em torno dos dois e ela sentiu-se prestes a ter um ataque.
	Sou o sr. Proctor, dono do maior banco da cidade. Est acusando minha noiva de alguma coisa?
Lucy pensou em protestar, mas ele a abraou e apertou seu ombro numa mensagem silenciosa.
	Bem, recebemos uma queixa, sr. Proctor. Algum afirma que sua noiva est operando comercialmente numa zona residencial.
	Quem faria uma reclamao to idiota? A velha do outro lado da rua?
No podia ser! A casa mais prxima ficava to afastada da estrada, que apenas as chamins podiam ser vistas de onde estavam.
	Sim, foi a sra. Chase  o policial confirmou.  Ela reclamou do barulho, de um punhado de garotas seminuas correndo pela praia, e parece que caiu da escada quando tentava ver o que estava acontecendo atravs da janela do sto. Como torceu o tornozelo, pretende processar sua noiva por danos fsicos.  claro que isso  uma grande bobagem  ele riu.  Mas existe realmente um problema legal, sr. Proctor. A prefeitura  bastante rgida com relao ao cumprimento da lei de zoneamento, e se sua noiva pretende manter uma escola nessa rea, ter de solicitar uma licena especial do conselho municipal. At l...
	No exagere, oficial. Caso no tenha percebido, isso no  realmente um negcio. E uma espcie de... hobby, e uma ao social. Atravs das aulas, Lucy mantm um punhado de meninas afastadas das ruas. Tenho certeza de que reconhece duas ou trs delas, no?
	Sim, conheo trs dessas meninas. Pais ricos, filhos mimados. No havia pensado nisso. Mesmo assim...
	Ento, tem de admitir que ela no est realmente operando comercialmente, correto?
O policial afirmou com a cabea.
	Sendo assim, no h necessidade de fechar a escola to repentinamente. De qualquer forma, ela entrar com a solicitao de licena o mais depressa possvel. No vai querer essas crianas soltas pelas ruas, vai?
	De jeito nenhum!  o oficial exclamou.  Mas s posso permitir o funcionamento da escola por um ou dois dias. Espero que compreenda, sr. Proctor  e despediu-se com um aceno.
Lucy o viu desaparecer do outro lado da casa e virou-se para Jim.
	O que significa tudo isso, afinal?
	Significa que est infringindo a lei. Alm de no ter uma licena para administrar uma escola particular, no pagou as taxas exigidas. Ou pagou?
	No. Por que insiste em fazer perguntas idiotas cujas respostas j conhece? E agora, que diabos vou fazer? Eu tenho uma licena!
	Do conselho municipal?
	Da Cruz Vermelha. E o suficiente para tornar meu negcio legal, no?
	Infelizmente, vai ter de fechar sua escola por algum tempo. Ou continuar operando sem cobrar pelas aulas. Enquanto isso, irei procurar os pais das meninas para conseguir apoio e pedirei instrues ao advogado do banco. Ele deve conhecer alguma forma de contornarmos essa situao.
	Que mundo mais estranho! Parece at que estou cometendo um crime!
	No quer perder a escola, quer? Conversei com Angie h alguns minutos, e ela disse que voc realmente precisa do dinheiro.
	Muito bem, garotas!  Lucy bateu palmas.  A aula ainda no terminou. Todas para dentro da gua! Voc tambm, srta. Proctor. Depressa!
	Mas eu queria...
	V se divertir enquanto pode  Jim comentou, esperando que ela se afastasse para voltar ao assunto.  Precisa do dinheiro porque...
	Isso no  da sua conta!
	Lucy!
	No preciso de dinheiro nenhum, sr. Proctor. E no pretendo me casar com voc, e tambm no vou...  As ltimas palavras foram abafadas pelo beijo quase selvagem.
Ainda estava tentando recuperar o flego quando Proctor indicou:
	No me importo com um pouco de independncia de vez em quando, mas s vezes voc me faz perder a pacincia, Lucy. Por que precisa de dinheiro?
Gostaria de dizer que tinha de pagar aquele maldito emprstimo, mas o bom senso a fez silenciar. Por que provocar a fera?
	Tenho algumas dvidas acumuladas.
	Se  s isso, por que no disse antes? Faa uma lista dos seus credores e mandarei minha secretria cuidar disso imediatamente. Faz parte do presente de casamento.
	Por acaso  surdo? No vou me casar com voc! No estou  venda, e no quero nenhum presente! Est comeando a me deixar realmente furiosa!
	Era exatamente o que eu pretendia  ele riu, beijando-a novamente e provocando as mesmas reaes intensas e inexplicveis.  Bem, por hoje  o suficiente.
	Do que est falando?  Lucy gritou descontrolada, vendo-o afastar-se pela praia.
	No esquea! Faltam cinco dias para o casamento.
Adoraria correr atrs dele, jog-lo sobre a areia e... Afinal, de onde vinhas imagens to indecentes?
Perturbada, respirou fundo e foi cuidar das quatorze alunas.
Terei de pagar a primeira parcela do emprstimo na prxima semana  Lucy concluiu, fingindo no perceber o ar preocupado de Angie.   uma quantia assustadora, e as parcelas devem ser pagas mensalmente.
	Sei que tudo isso  muito complexo, mas conheo uma soluo absolutamente simples. Pelo menos para o primeiro pagamento.
	Simples?
Angie moveu a cadeira de rodas e aproximou-se do telefone.
	Sim, muito simples  disse enquanto discava.  O bando no se mostrou disposto a emprestar todo aquele dinheiro?
Lucy afirmou com a cabea, os olhos cheios de desconfiana.
	Ento volte ao banco e pea outro emprstimo. O suficiente para saldar duas ou trs parcelas da dvida.
Ainda estava boquiaberta quando algum atendeu o telefone do outro lado da linha e Angie comeou a falar.
	Abigail? Abigail Chase? Aqui  Angela Moore. Escute aqui, sua velha intrometida e desocupada, como se atreveu a registrar uma queixa contra minha Lucy?
Durante alguns segundos, Angie ouviu em silncio.
	Bem, no gostaria de expor uma velha conhecida ao ridculo, Abigail, mas ainda me lembro do que costumava fazer na praia na poca da Segunda Guerra Mundial. Voc e aquele... como era mesmo nome do sujeito? Ah, voc tambm se lembra!
Mais alguns instantes de silncio antes de uma nova interrupo.
	J esqueceu que tenho a hipoteca de sua casa, Abigail? O que acha de ser obrigada a fazer as malas em menos de vinte e quatro horas? Conheo um asilo adorvel no centro da cidade Os quartos so pequenos, sem banheiros exclusivos, mas acho que adoraria poder contar com a companhia de mais quatro ou cinco velhinhas doentes e surdas nas longas noites de inverno. Teria com quem conversar e... O que disse? Bem, se pretende retirar a queixa, tambm posso mudar de ideia sobre a hipoteca. Sim, at logo  e desligou o telefone com um sorriso satisfeito.  Est vendo, Lucastra? Voc tem muitos amigos na vizinhana.
	Mas... pedir outro emprstimo? Isso no seria desonesto?
	 claro que no! A velha lei Crist condena a usura, e seis por cento ao ms  uma taxa bastante elevada. Os banqueiros merecem todos os castigos do mundo!
Nesse ponto, Angie tinha razo. Talvez Jim Proctor tambm merecesse o castigo de se casar com uma mulher independente, voluntariosa e determinada.

Capitulo VI

Na manh seguinte, Lucy Borden acordou no meio de um sonho terrvel. Jim Proctor estava debruado sobre sua cama, o rosto contorcido numa horrvel mscara de dio.
	Dinheiro  repetia.  Dinheiro, ou... Ningum trapaceia dentro de meu banco!
Assustada, esfregou os olhos at livrar-se da terrvel sensao provocada pelo pesadelo. Dinheiro... Ultimamente, era como se no fosse capaz de pensar em outra coisa. E ento pensou em algo que no havia lhe ocorrido. Como Angie tornara-se proprietria da hipoteca daquela manso do outro lado da rua?
	Ah, no importa. Preciso arrumar algum dinheiro.
Meia hora mais tarde, depois de ajudar a amiga a vestir-se e empurrar sua cadeira de rodas at a cozinha, Lucy perguntou:
	O que vai querer comer?
	Presunto, ovos e caf.
	O mdico a proibiu de tomar caf, lembra-se?
	Aquele moleque insolente! O que ele sabe a respeito da vida? Quero caf!
Lucy suspirou, encolheu os ombros e serviu o caf.
	Angie, com relao  hipoteca...
	Que hipoteca?
	Voc disse  sra. Chase que possua a hipoteca de sua casa, e sempre achei que estivesse falida!
	E estou. Quero dizer, no tenho nenhum dinheiro, mas tenho uma sacola de papis acumulados ao longo dos ltimos vinte e cinco anos. Gastava todo o dinheiro e ia guardando o restante nos armrios.
	Mas...
	Est curiosa? Por que no vai examin-los? Os papis esto guardados naquele ba ao lado da minha cama. Acho que no valem grande coisa, mas pretendia mesmo deix-los para voc.
	No se importa se eu der uma olhada neles?
	 claro que no.
	No est curiosa?
	Nem um pouco. No h nada mais aborrecido que um ba repleto de papis. Toda aquela poeira provoca minha asma.
	Talvez os examine num dia de chuva. Suspendi a aula de natao de hoje, mas preciso estar no banco s nove em ponto.
	Ento  melhor correr.
Maude entrou nesse momento, animada e radiante como um raio de sol.
	Vim cuidar de voc, Angie  ela anunciou.  E  melhor correr, Lucy. Papai est andando pela casa dando ordens como se fosse Napoleo. Acho que ele no vai ao banco.
	Que criana adorvel  Angie sorriu. - O que vamos fazer com o nosso tempo, meu bem?
Lucy respirou fundo e saiu sem olhar para trs, tentando acreditar que nada de mal aconteceria em sua casa. Disposta a aproveitar a manh ensolarada, decidiu caminhar pela Ned's Point at o centro da cidade, mas no havia percorrido nem cem metros quando um automvel aproximou-se e buzinou vrias vezes.
	Maluco!  gritou assustada, virando-se para encarar o motorista do Cadillac.  Por que fez isso? Podia ter me matado de susto!
	Vai para o mesmo lugar que eu?  Jim Proctor perguntou com um sorriso.
	No sei. Para onde est indo?
	Para a prefeitura.
	No, obrigada. Estou indo em outra direo.
	E seu eu dissesse que posso me desviar do caminho?
	A resposta seria a mesma.
Proctor inclinou-se e abriu a porta do passageiro.
	Lucy Borden, no me provoque! Pare de discutir comigo e entre de uma vez!
	No quero entrar. E voc no pode me obrigar!
No devia deix-lo intimid-la s porque era grande, forte e... Por que estava descendo do carro?
	Jim Proctor! No se atreva... No pode parar o carro no meio da estrada!
	Ah, no posso? E tambm no posso obrig-la a entrar?
No instante seguinte Lucy gritava e debatia-se em seus braos, tentando soltar-se.
	Ponha-me no cho, seu monstro!
	O que  isso?
	 uma ordem!

	Sim, eu ouvi. Mas por que essas pessoas esto se glomerando  nossa volta?
	Por que voc parou o cairo no meio da estrada e impediu o trnsito nos dois sentidos, seu idiota!
	Amvel como sempre.
	Odeio esse tipo de atitude! Odeio, ouviu bem, sr. Qualquer Coisa?
	O nome  Proctor, Lucy. Continue tentando, e vai acabar se acostumando. Afinal, esse vai ser o seu nome, tambm. Meu, seu e de Maude.
	Nunca! Nem que eu viva mil anos! No vou me casar com voc! Nem que...
Mais uma vez, Proctor conseguiu silenci-la com um beijo.
O pequeno grupo de pessoas que os observava aplaudiu com entusiasmo.
Vermelha como um pimento, Lucy debateu-se na intil tentativa de obrig-lo a solt-la.
	Veja o que fez comigo! Todas essas pessoas me conhecem!
Estou totalmente embaraada.
	Totalmente?
	Sim, totalmente! Ponha-me no cho agora mesmo.
Em vez disso, Proctor a segurou com mais fora e respirou fundo.
	Senhoras e senhores, acabei de saber que todos vocs conhecem Lucy Borden. Talvez estejam intrigados com um beijo to apaixonado e em pblico.
	Pare com isso!  ela sussurrou, encolhendo-se como se pudesse desaparecer.
	Quero que saibam que esse beijo foi perfeitamente moral, decente e legal. Na prxima tera-feira, Lucy vai me dar a honra de aceitar-me como seu marido na Igreja da Congregao, e quero que todos vocs estejam presentes. Aps a cerimnia haver uma recepo na praia, em minha casa. No esqueam de avisar os amigos!
O grupo de cerca de trinta pessoas aplaudiu novamente e Jim finalmente a colocou no cho, tomando a precauo de mant-la entre os braos.
	Ei, voc est chorando! No precisa chorar, Lucy. De agora em diante, prometo proteg-la em todos os sentidos. Venha, vamos embora.
	E quem vai me proteger de voc?
Proctor afastou-se como se houvesse sido atingido por um raio. Depois de fit-la por alguns instantes, entrou no carro e partiu sem dizer nada, deixando-a sozinha na estrada.
Lucy chegou ao banco exatamente s nove. O sr. Ledderman conversava com um colega, mas correu para sua mesa ao v-la entrar.
	Que maneira deliciosa de comear o dia  disse, indicando a cadeira reservada aos visitantes.
Lucy sorriu. Ledderman era um homem gentil, mas no gostava de ser tratada como uma boneca de porcelana.
	Sua noiva sabe que anda por a falando desse jeito?
	Sabe, e at me encoraja. Engraado ter perguntado. Ela e  eu recebemos uma proposta para trabalhar numa cidade do Arizona. Sol, ar puro e toda aquela beleza natural. Mas em que posso servi-la, srta. Borden?
	Poderia me conceder outro pequeno emprstimo, sr. Ledderman?
	Evidentemente! Na verdade, ser um emprstimo histrico.
	Por qu?
	Trabalho para o banco h dois anos, e essa ser minha ltima transao no departamento de emprstimos. Qual  a quantia, srta. Borden? Devemos consider-la uma extenso da hipoteca?
	Sim... acho. Se  assim que costumam fazer  ela respondeu, antes de revelar a quantia que tinha em mente. O suficiente para pagar quatro prestaes do primeiro emprstimo, de acordo com seus clculos. E depois disso? Deus proveria, Angie havia dito quando discutiram o assunto. Mas Angie no era exatamente uma beata, e Lucy no sabia se Deus aprovava a conduta dessa ovelha.
	Uma gota no oceano  Ledderman comentou com entusiasmo, referindo-se  quantia reduzida.  Infelizmente meu chefe est nos observando, e teremos de enfrentar toda aquela papelada novamente.
Resignada, Lucy assinou em trs locais diferentes e esperou que o conselho deliberativo aprovasse e assinasse seu pedido. Como o cavalheiro que era, Ledderman a acompanhou at a porta e despediu-se com um prolongado aperto de mo.
Grata como jamais estivera, Lucy no pde conter-se e abraou-o.
	Ora, ora, bem no meu nariz!  Jim Proctor exclamou s suas costas.  E com um de meus funcionrios!
	Ex-funcionrio  Ledderman respondeu confiante.  Esse foi meu ltimo ato no banco, sr. Proctor. Vim acompanhar Lucastra at a porta, e agora vou ao Departamento Pessoal para acertar minhas contas.
	Por qu?
	Vou para o Arizona. Sol, ar puro...
	E voc vai com ele?  Proctor espantou-se, os olhos fixos em Lucastra.
	Eu no! Caso no saiba, John Ledderman j tem uma noiva. A enfermeira Mary Norris.
	Ah, sim, a enfermeira  ele repetiu aliviado. Era evidente que jamais ouvira falar em Mary Norris, mas o simples fato de saber sobre sua existncia era motivo de alegria.  Bem, s me resta desejar boa sorte aos noivos, no ? At logo, Ledderman 	e estendeu a mo.
Sorrindo, o funcionrio aceitou o cumprimento e aproveitou para beijar o rosto de Lucy ao despedir-se.
	 melhor ir acertar suas contas  Jim indicou.
	Sim,  claro. Ah, antes que eu me esquea, como vai a nossa sra. Moore?
	Melhorando  Lucy respondeu.  Devagar e sempre.
	Bem, nem tudo  como desejamos. Adeus, srta. Borden. Adeus, sr. Proctor.
	Que diabos ele quis dizer com esse comentrio estranho?	Jim Proctor resmungou.
	No sei. Ele diz coisas parecidas sempre que nos encontramos.
	No faz diferena. Escute, Lucy, acho que agi mal naquela estrada esta manh. Espero que possa... bem, Maude e eu vamos sair para um passeio de barco essa tarde. Gostaria de vir conosco e respirar um pouco de ar puro?
	Eu adoraria. Mas no posso deixar Angie sozinha.
	Mandarei um dos empregados passar a tarde com ela.
	No sei... No pode ser qualquer coisa. Tem de ser algum de quem ela goste.
	Minha governanta  uma mulher adorvel, e parece que j conhece sua... no sei qual  o grau de parentesco entre voc e a sra. Moore.
	Somos apenas boas amigas. Na verdade, Angie foi uma grande amiga de minha av, e fiz questo de no perder o vnculo.
	Voc  uma pessoa muito bondosa  ele sorriu, segurando seu brao e levando-a novamente para o interior do banco.  No vou demorar  avisou,-indicando uma das cadeiras de couro de seu gabinete.  Espera por mim?
Por que no?
Alm da porta, Proctor dizia  secretria:
	Encontre o endereo de uma tal Mary Norris.  a enfermeira que anda por a com John Ledderman. Quando conseguir encontr-la, mande quatro dzias de rosas amarelas. O carto? Escreva apenas... "Graas a Deus voc existe."
Congelada pelo que acabara de ouvir, Lucy agarrou os braos da poltrona e prendeu o flego, rezando para que ele no lembrasse de sua presena.
A vida estava ficando mais excitante a cada dia! Seria essa a sensao que as pessoas descreviam quando estavam apaixonadas? No. Proctor era um homem impertinente, um verdadeiro rolo compressor capaz de atropel-la e deix-la esmagada no meio da estrada. Cuidado, Lucastra Borden!
	Que diabos est acontecendo aqui?  Jim Proctor diminuiu a velocidade do Cadillac.
Havia mais carros parados na porta da casa de Lucy do que transitando na estrada.
	No sei. Oh, meu Deus! Talvez tenha acontecido algo com Angie!
Proctor pisou no breque e Lucy desceu antes mesmo do carro parar. Apressada, entrou pela porta da frente e atravessou a casa com um raio at a cozinha.
Angie estava sentada na cadeira de rodas junto da porta aberta, e as gargalhadas sacudiam seu corpo magro e encurvado.
	Angie! Voc est bem?
	Oh, ol Lucy. Nunca estive melhor  ela apontou para fora.  No me divirto tanto desde que meu pai levou-me naquela viagem de vapor pelos rios do pas.
	E Maude?
	Est fazendo maravilhas. Por que no vai ver com seus prprios olhos?
Maude estava parada no ltimo degrau da escada da varanda, encarando uma multido de adultos furiosos.
	O que est acontecendo aqui?
	Lucy! Graas a Deus voltou para casa! Eles esto malucos!
	Pode apostar nisso, mocinha  um dos homens respondeu.  Planejei minhas frias durante um ano, e agora voc manda minhas duas enteadas de volta para casa! Vou criar uma confuso por causa disso, moa!
	E eu quero meu dinheiro de volta  gritou a mulher ao lado dele.  E com juros! Vou process-la por perdas e danos, srta. Borden!
Lucy aproximou-se da balaustrada e estranhou o sbito silncio do grupo. Teria sido capaz de intimid-los com sua presena forte, segura e confiante?
Mas ento ouviu os passos s suas costas e virou-se, rindo da prpria pretenso. A presena forte, segura e confiante era de Jim Proctor, evidentemente.
	Lamento pelos inconvenientes causados  disse, encarando o grupo de pais e mes , mas fui forada a suspender as aulas de natao sob pena de ir para a cadeia.  Um murmrio de insatisfao brotou da multido e Lucy soube que era hora de um pouco de magia e criatividade. Mentiras inocentes, como diria sua av.  Meu noivo negou-se a aceitar a ideia de me ver presa, e como sempre fao o que ele diz, achei melhor fechar a escola.
	Que mentira mais descarada!  ele sussurrou em seu ou vido, antes de dirigir-se  pequena multido.
Apesar de manter-se atenta, Lucy no conseguia compreender quase nada do que ele dizia. Parecia ter comeado pelos artigos da Constituio, passado para os cnticos de J, pela histria da Nova Inglaterra, e finalmente concluiu com terrveis ameaas veladas sobre os inconvenientes de se colocar contra o maior banqueiro da cidade. Todos concordaram e a multido se dispersou rapidamente.
	E assim que se faz, minha querida noiva  ele comentou com um sorriso satisfeito.
	No sou sua noiva! Foi apenas um subterfgio. E no vamos nos casar, ouviu bem?
	Bata o p! Voc parece mais firme quando bate o p no cho como uma menina mimada.
	Sr. Proctor  Lucy comeou, pensando numa maneira de livrar-se de sua persistente companhia. Ento lembrou o que Angie havia dito sobre os papis guardados no ba e disparou:  Lamento, sr. Proctor, mas acabo de me lembrar de um problema srio e importante. Infelizmente no poderei acompanh-lo na
quele delicioso passeio de barco.
	Tambm tenho um problema, e o meu  mais importante 	Maude interferiu.  Vai se casar com meu pai?
	Maude!
	O que , papai? Esse assunto  muito importante para mim. E ento, Lucy? Vai se casar com meu pai?
	Eu... ainda no pensei na proposta com a seriedade que o assunto exige. Casamento  um passo muito importante, e seu pai...
	No  o mais doce dos homens  Jim cortou.  Vamos deixar Lucy decidir sozinha, est bem? No queremos que ela se case comigo por ter sido pressionada.
	 claro que queremos  Maude protestou.  Quaisquer meios so vlidos em caso de emergncia. Para voc  simples. Basta telefonar para uma mulher e j tem com quem sair e passear pela cidade. Mas eu preciso de uma me!
	Que histria  essa dele sair com as mulheres da cidade?
	Primeiro vamos terminar de discutir o seu problema, Lucy Jim sugeriu apressado.  As paredes tm ouvidos. Maude, corra at nossa casa e verifique se a sra. Winters pode preparar uma boa refeio para todos ns. Algo porttil. Quando a comida estiver pronta, os seguranas a traro para a casa de Lucy.
	Mas...
	V!
- Ningum presta ateno em mim  a criana resmungou. Lucy?  e aproximou-se, abraando-a com fora.  Eu amo voc.
	Tambm amo voc, meu bem.
	Amanh. Iremos velejar amanh  Jim decidiu.
	Mas so s dez e meia da noite!  Lucy argumentou.
	Tem razo. H mais alguma coisa nesse pacote?
	No. Mas no outro...
	Ento existem outros?  ele perguntou desanimado, olhando para a mesa da sala de jantar e para os papis que a cobriam.
	S mais um. Por que no paramos um pouco e descansamos?
	Boa ideia. Olhe s para isso! Montanhas de papis sem valor!
	Mas voc disse que aquela pilha...
	Eu sei o que disse. Aqueles so bnus federais que ela pode trocar por dinheiro quando quiser. E aquilo ali... no posso afirmar com certeza, mas parecem cdulas do tempo da Confederao. Onde conseguiu tudo isso, Angie?
	Os parentes foram morrendo e os papis acabaram todos em minhas mos. Sabe como so essas coisas, no?  A sra. Moore sorriu, exausta, porm feliz. Agora deixara de ser apenas uma piada. Caso as coisas no acontecessem como esperava, agora tinha realmente algo que podia deixar para Lucy.  Juro que no vou apostar nem um centavo nos cavalos  prometeu.
Os outros dois riram e Lucy a levou para a cama. Quando voltou para a sala de estar, parou junto  mesa para espreguiar-se e flexionar os braos.
	Dores nas costas?  Jim perguntou.
	Um pouco. Deve ser de ficar debruada sobre a mesa. E meus olhos ardem, tambm. Nunca havia percebido como a iluminao dessa sala  fraca. Mas a felicidade de Angie compensa qualquer sacrifcio. Viu como ela melhorou nas ltimas duas horas? Ultimamente tenho me preocupado com ela. Sei que minha casa  grande, mas os cmodos so pequenos, e s vezes tenho a impresso de que ela sente-se presa.
	No pode consertar o mundo, Lucastra Borden  ele sorriu, puxando-a e obrigando-a a sentar-se sobre seu joelho.  Como um ser to pequeno pode querer encontrar todas as solues?
	No sou to pequena.
Mas no havia a fora habitual em sua afirmao. Por que sentia-se to plcida ultimamente? Como uma mulher que, envolvida pelo fluxo do amor, no se preocupa em saber onde o fluxo a levar?
	E claro que no  pequena  Proctor concordou.
Estava to satisfeito com a vida, que concordaria at que os maiores absurdos.
	O que acha que devemos fazer depois dessa verificao?
	Acho que devemos nos beijar para sempre.
	Proctor! No estou falando sobre ns! Refiro-me a Angie.
	Devia procurar um banqueiro para resolver esse problema.Conheo um ou dois funcionrios de um certo banco que poderiam realizar um inventrio e calcular os valores de todos esses documentos. E tambm vamos precisar de um bom advogado para cuidar dos interesses de Angie.
	Gosto quando diz... vamos precisar. Somos realmente ns, Jim?
	Realmente. No h nada capaz de nos separar, minha adorvel Lucy.
	Preferia que no estivesse rindo.
	No faria diferena. Estou com os dedos cruzados.
	Preciso confessar uma coisa, Jim. No sei nada sobre o casamento. Minha me morreu h muito tempo e...
	Era exatamente o que eu precisava  ele riu.  Vou ensinar tudo o que deve saber sobre o casamento, Lucy.
	 muita gentileza, mas gostaria de verificar seus dentes antes da cerimnia. Lembra-se da histria de Chapeuzinho Vermelho? Ela acreditou na palavra de um lobo e... bem, lobos so muito melhores que banqueiros.
	Lucy Borden, que coisa mais horrvel! De onde tirou essa ideia?
	Um dia depois de conhec-lo, voc executou a hipoteca do Asilo Merit e todos os pacientes foram despejados. No acha que foi uma grande crueldade?
	Acho que est me confundindo com outro banqueiro. No executei hipoteca de asilo nenhum. Talvez at a tivesse executado se a hipoteca estivesse em poder de meu banco.
	Fico feliz por saber que no foi voc. Mas... teria mesmo coragem de despejar um bando de velhinhos indefesos?
	No tenho escolha. No tomo todas as decises sozinho, sabe? Existem acionistas e correntistas em meus calcanhares. Administro o banco, tento ganhar alguma coisa para mim e para os acionistas, e uso o dinheiro dos correntistas para trabalhar. Assim, todos os devedores tm de pagar seus emprstimos em dia, ou...
Era difcil saber se um homem estava falando srio quando suas mos deslizavam ansiosas pelas costas de uma mulher.
	Essa coisa est colada?  Proctor perguntou com um brilho intenso nos olhos.
O fecho fica na frente.
Quando as mos dele tentaram alcanar o fecho do suti, Lucy levantou-se de um salto e foi para o outro lado da sala.
	Bem... parece que  o fim do captulo de hoje  ele suspirou.
	Pode acreditar que sim.
	Vai me fazer esperar pelo casamento?
	Droga, Jim!  ela exclamou, atirando-se em seus braos.  No sei o que est acontecendo comigo. Acho que estou apaixonada, e nem ao menos gosto de voc!
	Podemos passar a noite juntos e ver o que acontece.

	Obrigada pela oferta, mas a porta de meu quarto possui um segredo que s permite a abertura depois do casamento. Minha av vivia dizendo que essa era a maneira correta de se fazer as coisas, e ela era uma mulher sensata.  melhor ir para casa.
Maude pode estar tendo outro ataque de sonambulismo.
	Duvido. Ela no voltou a ter aqueles ataques desde que mandamos Eloise embora.
	Mesmo assim, j  tarde. Boa noite, sr. Proctor.
Assim que ele partiu, Lucy fechou a porta e preparou-se para mergulhar em sonos doces.
Todos os devedores tm de pagar seus emprstimos em dia, ou...
O que parecia um sonho maravilhoso transformou-se em pesadelo. O que Jim Proctor faria quando descobrisse que Lucastra Borden, sua futura esposa, no tinha como pagar o que devia ao banco?
Preocupada, foi para o quarto e aproximou-se da janela para fechar as cortinas. Havia um homem do lado de fora, na estrada. A brasa do cigarro traa sua localizao, o que significava que no estava interessado em esconder-se. Um dos homens de Jim Proctor, provavelmente. Mesmo distante, ele tomava providncias para garantir sua segurana.
Talvez o amasse...

Capitulo VII

No dia seguinte, Lucy desceu a escada radiante i e sorridente s para descobrir que o tempo no estava de acordo com sua disposio. Nuvens negras encobriam o cu, e uma neblina densa pairava sobre o oceano.
	Droga! Nosso passeio de barco vai ter de ser adiado.
	Por qu? Vocs podem passear em torno do porto. No precisam ir para o mar aberto  Angie lembrou.  O que h para o caf?
	Panquecas.
	Acho que j engordei cinco quilos desde vim para casa. Ou melhor, desde que deixei o...
	Por que est tentando corrigir-se? Esta  sua casa!
	Eu sei. Mas suponhamos que voc tenha um ataque de loucura e decida se casar com aquele banqueiro.
	As coisas continuaro como esto  Lucy encolheu os ombros:  Proctor ainda no foi informado, mas se eu decidir aceitar o pedido de casamento, ele ter de aceitar ns duas.  claro que no existe nada definitivo...
	No  o que ele pensa. Ser que ainda no viu como os olhos do sujeito brilham quando voc est por perto? A natureza  mesmo estranha. Quando uma mulher fica velha o bastante para saber o que um homem est pensando,  tarde demais para desfrutar da experincia. O que acha de alguns ovos mexidos?
Estavam no meio da refeio quando Maude e o pai chegaram. A menina usava um encantador maio amarelo, e Proctor vestia cala branca, camiseta azul e um par de tnis prprios para esportes aquticos.
Pensando na cala jeans desbotada que escolhera para o passeio, Lucy teve certeza de que viver ao lado desse homem seria sofrer eternamente de complexo de inferioridade.
	Bom dia, beleza  ele cumprimentou, depositando um beijo carinhoso no rosto de Angie.  Bom dia, Lucy  e beijou-a rapidamente nos lbios.
Maude distribuiu abraos e beijos mais entusiasmados.
	Vamos pescar!  anunciou.  Voc, papai e eu.
	Vamos? Mas Angie e eu ainda no terminamos nosso caf e...
	Eu ajudo.
	Maude!  Proctor censurou-a.  Ela acabou de comer. A sra. Winters estar aqui em alguns minutos para lhe fazer companhia, Angie.
	Quero que saiba que... Bem, fico muito grata, mas acho que exagerou um pouco  Lucy comentou com um sorriso.
	Do que est falando?
	Do guarda que passou a noite vigiando minha casa  e abraou-o.
Jim aceitou o abrao com ar intrigado e indicou:
	A vem a sra. Winters. Acha que vai ficar bem, Angie?
	 claro que sim! Divirtam-se, e tomem cuidado com as rochas. Por acaso tm uma licena para pescar?
	No  Proctor riu.  Mas tambm no temos iscas.
Quando chegaram ao atracadouro, Maude afastou-se para verificar o bote inflvel amarrado ao veleiro e Lucy aproveitou para esclarecer algumas coisas.
	Afinal, qual  a proposta dessa expedio, Jim?
	As pessoas costumam chamar de namoro.  claro que no levam seus filhos, mas achei que podamos inovar. Caso no tenha percebido, est sendo cortejada, srta. Borden.
	 mesmo? Cortejada? Bem, vou ter de reservar meu julgamento para mais tarde.
	Eu j esperava por isso. Venha, Maude est nos esperando.
Era delicioso contornar a costa sentindo o vento no rosto. Proctor era um marinheiro habilidoso, e em pouco tempo alcanavam o ponto entre Strawberry Point e Crescent Beach, onde ele lanou ncora.
	Agora vamos pescar.
	Mas voc disse que no temos iscas!
	No importa. Maude vai se divertir com os pedaos de po e a vara de pescar, e ns vamos observ-la.
	Vamos ficar aqui sentados, olhando?
	Tem alguma ideia melhor?  ele abraou-a.
	Acho que no.
	Eu j imaginava.
	Algum j conseguiu pescar alguma coisa nessa regio?
 Lucy perguntou, sentindo a mo dele deslizar por seus ombros em direo ao seio.
	No que eu saiba. Mas isso no importa. Maude no quer realmente pescar, e j temos outro peixe para fritar.
A mo continuou deslizando at quase tocar um de seus seios e Lucy estremeceu.
Outro peixe para fritar?
	Estou com fome!  disse, afastando-se dele como se houvesse sido atingida por uma corrente eltrica.  Trouxe sanduches?
	Sim, esto na cesta  ele suspirou.  Tem certeza de que no  descendente dos puritanos?
	J disse que meus ancestrais eram pioneiros.
	Mas...
	Papai?  Maude chamou com tom aflito.  A cidade desapareceu.
Proctor virou-se e viu que uma nvoa densa cara sobre o mar, encobrindo a viso. Ao mesmo tempo, um som estranho partiu de seu bolso e ele rapidamente apanhou o pequeno aparelho de recados.
	Lamento estragar o passeio, mas temos de voltar imediatamente  ele anunciou com expresso sria.  Problemas no banco.
Jim levantou a ncora em tempo recorde e colocou o veleiro em movimento. Atrs deles, a neblina parecia cada vez mais densa e baixa, como se quisesse tragar o mundo.
	Ei, isso  interessante  Lucy comentou enquanto espreguiava-se.  Tudo o que temos de fazer ...
	Rezar  Maude cortou com tom srio.
O vento que at ento enchia as velas desapareceu, e a embarcao ficou oscilando ao sabor das ondas cada vez mais altas.
	No sei... Tenho a impresso de que estamos perdendo essa corrida. O que vamos fazer, Capito Sabe Tudo?
	Simples, marujo Lucy Borden. Vamos remar  e retirou um par de remos de um canto do veleiro.
	Oh, no!
	Por que o espanto? So s remos.
	No me venha com essa histria de so s remos! H seis anos aceitei um convite para passear no barco de Hoagy Smith e ficamos sem combustvel no meio de um nevoeiro. Passamos quatro horas remando at alcanarmos o porto!
	E o que aconteceu com Smith?
	No sei. Nunca mais o vi.
	Bem, pelo menos conhece os instrumentos  ele suspirou resignado.  Lucy, fique do lado esquerdo do barco. Eu cuido da direita e Maude maneja o leme.
	Quanto tempo teremos de remar, e como saberemos em que direo seguir?
	Estamos a menos de dois quilmetros de Ned's Point, Lucy.
O veleiro  de fibra de vidro, um material muito leve. No vamos demorar. E eu sei em que direo temos de seguir. Meu Deus, conheo cada rocha desse mar!
 Aposto que sim  Lucy resmungou mal humorada, mergulhando o remo na gua e testando a fora dos msculos. Seus braos doam antes mesmo de colocarem o veleiro em movimento!
	Muito bem, temos de sincronizar os movimentos. Preparada? Um, dois, trs... comece!  Jim instruiu.
A embarcao era realmente leve, mas tiveram de remar algumas vezes antes de coloc-la em movimento. A cada remada o nevoeiro aproximava-se mais, at que, eventualmente, foram envolvidos pela nvoa que parecia transport-los para um mundo irreal.
	Papai, no estou gostando disso.
	No se preocupe. Conheo cada rocha e cada banco de areia desse mar.  Nesse momento foram sacudidos por um solavanco e o veleiro foi erguido, ficando suspenso alguns instantes antes de comear novamente a mover-se.  Est vendo? A foi a primeira rocha.
	Engraadinho!  Maude irritou-se, agarrando-se ao leme com fora.  Lucy, faa alguma coisa!
	Estou fazendo  ela respondeu ofegante, jogando o peso do corpo sobre o remo para imprimir mais fora aos movimentos. Mas havia perdido o ritmo, e era difcil sincroniz-los novamente com o remo manejado pelos braos musculosos de Proctor.
Ele havia tirado a camisa e parecia um viking lanando-se ao ataque. Os msculos lembravam cabos de ao em ao, e as costas brilhavam banhadas por uma fina camada de suor.
	Sonhando acordada?
Lucy piscou vrias vezes antes de compreender que debruara-se sobre o remo enquanto o observava.
	No, eu... estava olhando para aprender a maneira correta de manejar o remo. Estamos indo na direo certa, Maude?
	No sei. Todas as direes parecem iguais.
	Preste ateno no compasso!
Era a primeira vez Lucy o ouvia gritar com tanta ferocidade e, assustada, parou de remar para fit-lo.
	No fique olhando para mim desse jeito! Reme! Reme!
	Estou remando - ela murmurou, movendo os braos com toda a fora que possua.
Estavam remando h cerca de uma hora quando Maude voltou a falar.
	Estou com medo.
	Estamos em boas mos, querida. Seu pai tem conscincia do que faz.
	Estou com medo!  a criana soluou.  Serei a nica garota da escola perdida no mar no veleiro do prprio pai!
- Bobagem  Lucy tentou acalm-la.  Estamos no meio de um porto quase fechado, e centenas de pessoas continuam cuidando de suas tarefas dirias bem ali na frente. Seu pai sabe o que faz. Temos de confiar em sua habilidade de navegador.  A mochila que preparara antes de sair estava bem perto de seus ps, e ela parou de remar para apanhar o suter e jog-lo na direo de Maude, que tremia convulsivamente.  Vista isso.
	Obrigada.
	Sente-se melhor?
	Um pouco. Diga que no preciso ter medo, por favor!
	No h nada a temer, meu bem.
	No mesmo  Jim concordou.  Mas chegaramos mais depressa se voc no parasse de remar, Lucy Borden. Jim! A situao est sob controle. Sei exatamente onde estamos e...
Um novo solavanco o interrompeu e, mais uma vez, o veleiro foi erguido ao ultrapassar uma rocha.
	Estou vendo uma luz!  Maude gritou excitada.
	Esto vendo?  Jim entusiasmou-se, constatando a luz clara e brilhante bem na frente da embarcao.  Conseguimos!
Nesse momento um baque mais forte os jogou para a frente e o barco parou sobre uma superfcie seca. A praia!
	Voc est bem, Maude?
	Bati o brao no leme, mas acho que estou bem.
	E voc, Lucy?
	Coberta de hematomas, mas viva.
	Otimo!  ele exclamou entusiasmado, levantando-se para ir soltar as amarras das velas.
E foi ento que o vento voltou a soprar e os lanou alguns metros  frente, apesar de estarem sobre a areia.
	Bem, aqui estamos  Jim concluiu.
- Aqui onde?  Maude quis saber, incapaz de orientar-se em meio ao nevoeiro.
	Ora... exatamente onde eu esperava chegar.  A luz do farol de Ned's Point continuava brilhando diante deles.  Em Ned's Point! Todos para fora do barco!
Nem todos os habitantes do litoral eram bons marinheiros. E nem todas as mulheres que escolhiam viver na praia por amor ao mar eram fortes o bastante para consolar uma criana amedrontada. Preocupada, Lucy abriu os braos para acolher aquela pequena criatura assustada.
	Eu no estava com medo  Maude murmurou.
	Eu tambm no. Afinal, seu pai estava cuidando de ns.
	Parem com essa ladainha. E no mintam, porque sei que estavam apavoradas. Eu tambm estava!
	Jim!
	Est bem, digamos que fiquei... preocupado. Vamos l, este  o fim da linha. Agora teremos de caminhar.
As duas desembarcaram e Proctor retirou as cestas do veleiro. Ned's Point era um pequeno parque em cujo centro erguia-se o farol que h anos sinalizava a entrada do porto. Os bancos espalhados pelo local serviam como observatrios de onde as pessoas podiam apreciar o mar em dias claros e, ao tropear em um deles, os trs sentaram-se como se houvessem encontrado um pedao do paraso na terra.
	Sabia que tudo acabaria bem  Maude riu.  Meu pai  mesmo brilhante!
	Coma um sanduche e fique quieta  Proctor indicou, abrindo a cesta de piquenique.
- Sua filha est certa  Lucy opinou.
Pela primeira vez na vida, havia falado com absoluta certeza. Desde a morte do pai, nunca mais sentira o conforto de poder contar com algum mais forte que ela. Mas ele no  meu pai, censurou-se ao aceitar o sanduche de atum. Ele ... meu cavaleiro numa armadura brilhante? Era evidente que velejar num dia nublado havia sido uma deciso estpida, mas Jim reparara seu erro levando-as de volta ao porto ss e salvas. Nenhum homem  perfeito, mas Jim Proctor era o melhor que uma garota como ela podia querer. Talvez at gostasse dele...
O sanduche de atum estava molhado e sem gosto. Maude ensaiou uma reclamao, mas a expresso sria do pai a fez mudar de ideia. Jim estava comeando a assumir a aparncia de uma certa figura lendria sobre a qual lera muito na infncia. Onde estariam as tbuas com os mandamentos?
Resmungando, ele desistiu do sanduche para apanhar o aparelho que, mais uma vez, emitia sinais estridentes em seu bolso.
Decidi ser banqueiro porque achei que nunca teria de trabalhar num fim de semana  balanou a cabea.  E no entanto, algum tem coragem de me chamar em plena tarde de sbado!
Era ridculo. A neblina ainda os cercava como uma cortina intransponvel, e algum insistia em cham-lo de volta ao mundo dos Cadillacs e das gravatas.
	Bem, s nos resta caminhar por esta estrada em linha reta Lucastra anunciou.  Devemos estar a menos de dois quilmetros da porta de casa. Deixaremos as cestas...
	E o barco  Jim lembrou.
	Isso  evidente  Maude fez uma careta impaciente.
	E depois mandaremos algum vir busc-los.
	Assim que a neblina dissipar-se  Lucy ofereceu.  Muito bem, comecem a andar.
	Gostaria que voc fosse o Superman  Maude disse momentos mais tarde.  Assim poderia voar e nos levar em seus braos.
	No abuse da sorte  Proctor resmungou.  Continue andando, e sem reclamar.
Maude seguiu na frente dos dois adultos com a energia tpica das crianas e Lucy segurou o brao de Jim.
	O que significa tudo isso?  perguntou em voz baixa.
	O qu? A neblina?
	O passeio.
	Ah, isso! Como disse antes, as pessoas costumam chamar esse tipo de situao de namoro. Uma mulher bonita como voc j deve ter tido alguns namorados, no?
	Sim, mas nenhum deles me levou para velejar no meio da neblina.
	Talvez no seja to bom nisso  ele admitiu irritado.  Passei a maior parte de minha vida tentando ganhar dinheiro, e minha esposa foi praticamente embrulhada para presente e enviada para minha casa.
	De qualquer forma, acho que saiu-se muito bem. Especia mente com sua filha por perto. E a primeira vez que saio para namorar um homem e sua filha  ela riu.  Francamente, Jim, foi muito bom. Talvez possamos fazer isso novamente algum dia.
A umidade provocada pela nvoa j no a aborrecia. Era como se estivessem caminhando dentro de uma redoma, afastados do mundo real, e isso era tudo de que precisava.
Haviam percorrido menos da metade da distncia quando um Pontiac aproximou-se e ofereceu carona.
	Parece que no  um bom dia para um passeio  Jim disse assim que acomodaram-se no interior do automvel.
	Tem razo  o motorista concordou. Exemplo tpico dos habitantes daquela parte do litoral, tinha o rosto vermelho e a barba branca e longa. - Mas vocs agiram corretamente.  sempre melhor manter-se em movimento. No teria sado de casa se um idiota qualquer no estivesse precisando de ajuda no meio do oceano. Fao parte da reserva da Guarda Costeira, e recebi um sinal pelo rdio. Espero que o sujeito tenha ao menos fornecido a localizao correta. Pode imaginar? Sair num barco no meio dessa neblina, sem um radar a bordo? E sem combustvel suficiente para voltar para casa!
	 realmente uma grande irresponsabilidade  Jim respondeu com ar solene.  Veja, ali est nossa casa. Obrigado pela carona.
	Voc  um homem de sorte  Lucy cochichou quando saram do carro.
Proctor limitou-se a encar-la como se estivesse prestes a apertar seu pescoo.
Angie e a sra. Winters foram at a porta assim que ouviram o rudo do automvel.
	Graas a Deus!  a sra. Moore uniu as mos em sinal de gratido.  Estvamos preocupadas. Vocs esto bem?
	Tudo bem  Jim respondeu antes de correr para o telefone.  Tivemos alguns problemas, mas acho que ningum espera normalidade num dia como o de hoje. Al?
	O homem que nos trouxe  da Guarda Costeira  Maude contou.  Ele disse que s um maluco sai para velejar no meio dessa neblina. 
	E melhor subir e vestir roupas secas  Lucy recomendou, lembrando-se das peas que a menina deixara em sua casa naquela primeira noite.
	No posso acreditar!  Jim Proctor exclamou ao desligar o telefone.  Hoje  sbado, e h uma equipe de auditores federais examinando todas as contas do banco!
	Quer uma carona at a cidade?
	Obrigado, Lucy, mas j telefonei para casa e chamei o motorista. Pode cuidar de Maude enquanto me livro desse aborrecimento? Dei folga aos empregados. Achei que poderamos...
	e aproximou-se com um brilho insinuante nos olhos.
	No se preocupe com Maude  Lucy afastou-se apressada. 	E tome cuidado. Essa neblina parece estar em todos os lugares. Vou acender um fogo para espantar o frio, e talvez possamos at assar algumas salsichas na lareira. Sra. Winters? Se quiser aproveitar sua folga...
	Vou lev-la comigo at a cidade  Jim anunciou olhando pela janela.  'A est o carro.
	Voc est ensopado, Jimbo! No pode ao menos vestir roupas secas antes de ir ao banco?
	No se preocupe, Angie. Estou to furioso, que secarei as roupas s com o calor da raiva. At logo. Ah, Lucy... Foi um dia muito agradvel. Talvez possamos repeti-lo.
	Talvez  ela riu, sabendo o que Proctor realmente pensava. Teria foras para resistir?
Maude desceu a escada no momento em que ele abria a porta.
	Papai?  chamou, correndo para abra-lo.  Posso ir com voc?
	Hoje no, querida. Fique aqui com Lucy e a sra. Moore. Acabei de saber que vo assar salsichas na lareira.
	Otima ideia! Podemos aproveitar para conversar um pouco. Sra. Winters, sabia que Lucy ser minha nova me?
	Ainda no decidimos nada, e...
	J decidimos tudo. Vamos nos casar na prxima tera-feira, s onze da manh, na Igreja da Congregao  Jim afirmou antes de sair e bater a porta.
	Ora! Esse sujeito me deixa realmente furiosa! J disse mais de mil vezes que no vou me casar, mas ele se recusa a ouvir! Adoraria esmurrar aquele nariz empinado.
	E por que no esmurra?  Angie riu.
	Tenho medo que ele revide  mentiu, virando-se para escapar dos olhares curiosos.
Depois de passar dias recitando todos os defeitos do vizinho, no podia simplesmente anunciar que mudara de ideia e decidira se casar com ele. E ningum esmurrava o nariz do homem amado, certo?
	Se meu pai ousar levantar a mo para voc, juro que... chuto a canela dele!
	Obrigada, Maude. Essa  a maior demonstrao de amizade que j recebi. E ento? Vamos assar as salsichas?

Capitulo VIII

Estou to tensa  Lucy reclamou, virando-se sobre a toalha para bronzear as costas.
	Vou aproveitar o bronzeador para lhe aplicar uma massagem Jim ofereceu, iniciando o trabalho antes que ela pudesse protestar.
As mos cobertas de creme eram macias, e os dedos estimulavam os msculos em torno de seu pescoo de maneira relaxante. Lucy suspirou de satisfao.
	Nada mal para um banqueiro.
	No fale assim. Talvez no seja um banqueiro para o resto da vida, sabe? Existem milhes de coisas que gostaria de fazer.
	Vocs dois vo passar a manh inteira sentados nessa toalha? 	Maude aproximou-se correndo.
	Iremos nadar em alguns minutos  Lucy respondeu, vendo a pequena virar-se e correr para o mar novamente.
	Deus, que maneira de cortejar uma mulher  Proctor suspirou.
	Ah, ento vai insistir na ideia? Pensei que ontem houvesse sido suficiente.
	De jeito nenhum. E no temos muito tempo, lembra-se?
Vamos nos casar na tera-feira. Sente-se mais relaxada?  Jim perguntou, deslizando os dedos por suas costas de forma provocante.
	Oh, sim! Mas acho melhor limitar-se aos ombros. Sua filha est olhando.
	E da? As pessoas usam bronzeador no corpo todo. Falando nisso... belas pernas, Lucastra Borden!
	Pare com isso! No se atreva a me examinar como se eu fizesse parte de um catlogo de vendas por correspondncia!
	Voc  mesmo engraada  ele riu, deslizando as mos por suas pernas e espalhando o creme.
	Tem notcias de Eloise, Jim?
	Falei com a me dela ontem. Eloise est deprimida, e minha ex-sogra vai lev-la num longo cruzeiro pelo mundo. Ela queria saber... se podia contar com a companhia da neta.
	Meu Deus! No deixou Maude viajar com aquela maluca, no ?
	 claro que no! Disse  av dela que Maude adoraria acompanh-las no cruzeiro, mas infelizmente est com sarampo.
	Sarampo?
	 a nica doena que minha ex-sogra ainda no teve.
Os sinos da igreja soaram distantes e, surpresa, Lucy sentou-se na toalha.
	Dez horas! Vou perder a missa novamente. E essa ser a...
	Que bela crist voc   ele a empurrou de volta.  Quantas vezes perdeu a missa este ano?
	No sei. Algumas. Para ser honesta, muitas  e sentou-se novamente, empurrando-o para obriga-lo a encerrar a massagem.
No queria realmente ir  missa, mas tinha de atender ao chamado da conscincia. No podia passar o dia todo deitada na praia, enquanto um homem massageava seu corpo com aquelas mos ansiosas. E em pblico!
	J est atrasada. Por que correr? Depois de todos aqueles problemas que enfrentamos ontem, bem que precisamos de um dia calmo e ensolarado. Gostaria de lev-la para um passeio de barco, mas os homens que foram busc-lo descobriram um enorme buraco no casco.
Lucy levantou-se e bateu as mos'no corpo para livrar-se da areia. Jim tambm levantou-se, o frasco de bronzeador em uma das mos e uma expresso decepcionada no rosto. Num impulso, ela ergueu-se na ponta dos ps e beijou-o na face.
	Estou mudando de ideia a seu respeito  disse.  Voc  um bom homem.
	Fico feliz por estar mudando de opinio. O casamento est marcado para tera-feira, lembra-se?
	Quanto a isso, no sei se mudei de ideia  ela comentou, virando-se e correndo na direo do oceano.
Jim correu atrs dela como um fantico perseguindo a vtima escolhida para o prximo sacrifcio.
Os Proctor almoaram com Lucy e Angie. As refeies estavam se tornando um hbito que as duas moradoras da casa apreciavam bastante. Por volta das trs da tarde, quando Maude comeou a piscar de sono, Jim pediu licena e levou a filha para casa. Angie e Lucy ficaram no terrao, vendo-o caminhar pela praia com a criana nos braos.
	Gosta dele, no ?
	Ele  um bom homem.  Uma sombra de dor passou pelo rosto da sra. Moore.  Conheci toda a famlia, e sei que eram pessoas de carter e bondade indiscutveis.
Percebendo a rpida mudana em sua expresso, Lucy aproximou-se da cadeira de rodas e afagou os cabelos brancos.
	Sente-se bem, Angie?
	Sim, estou bem.
	Posso ser jovem e estpida, mas no sou cega. Qual  o problema?
A mo enrugada e contorcida pousou sobre a dela num gesto de conforto. No havia reparado antes, mas a pele de seu rosto era como um pergaminho transparente. Angie Moore estava definhando diante de seus olhos, e ela nem notara! Uma onda de culpa a invadiu com fora devastadora.
	As pessoas no vivem eternamente, querida  Angie respondeu.  Estou ansiosa pela tera-feira.
	Por qu? O que h de to importante na tera?
	Posso ser velha e tola, mas ainda vejo e escuto muito bem. Sei que vai se casar com ele na tera-feira.
	Como pode saber, se nem ele mesmo sabe? Apesar de toda aquela conversa sobre horrio e igreja, Jim ainda no sabe se vou aceitar o pedido de casamento, ou no.
	Ah, mas voc vai se casar com ele. E sero felizes para sempre. E sabe de uma coisa?
	O qu?
	Na tera-feira estarei completando noventa e trs anos.
	Na tera? Eu no sabia! Noventa e trs?. Uau!
	Uau, realmente  ela riu.  Vivo apenas para ver esse dia, Lucy. Quero viver esse dia glorioso antes de...
	Ah, no! No me venha com histrias tristes. Estvamos falando sobre o seu aniversrio, lembra-se? Que tal planejarmos uma comemorao?
	Oh, sim! Depois do casamento! No seria maravilhoso?
	Sim, seria. Est cansada?
	Muito. E estranho, Lucy. Desisti de cochilar durante o dia h quase oitenta e cinco anos, mas estou com muito sono  e afagou a mo da amiga.  Voc  uma boa moa. Uma criatura realmente adorvel. Espero que ele a merea, querida.
	Ou vice-versa. Venha, j  hora de sair desse vento.
	Por favor, no diga isso. No quero ser afastada do vento e do mar. Na verdade, quando morrer...
	No vamos discutir esse assunto. Ningum vai morrer, Angie. Ainda temos anos e anos de convivncia pela frente.
	Todo mundo morre, Lucy. A morte faz parte da vida como... Ah, pelo amor de Deus! No chore em cima de mim!
	No estou chorando  Lucy soluou, contendo as lgrimas com esforo.
	E j que comeamos a falar sobre isso, quero que saiba que deixei tudo para voc. No tenho mais ningum no mundo, lembra-se? Falei com meu advogado na semana passada, e o testamento est guardado em minha caixa forte, dentro do armrio de roupas. E h mais uma coisa que quero que faa por mim, querida. Quero ser cremada, e minhas cinzas devem ser jogadas ao mar.
	J chega dessa conversa triste  Lucy determinou com firmeza, empurrando a cadeira de rodas at o quarto.
Quando Angie adormeceu, Lucy sentou-se numa poltrona ao lado da cama e observou o rosto plido e cansado. Nos ltimos dias, a sra. Moore participara de tudo, acompanhara todas as ati-vidades e dividira todos os problemas, mas era evidente que estava esgotada. Se no melhorasse at o dia seguinte, chamaria um mdico para examin-la.
O dia seguinte era uma linda e ensolarada segunda-feira. Angie ainda dormia quando Lucy levantou-se e subiu a escada na ponta dos ps para uma ducha rpida. Passara a noite toda naquela poltrona, velando o sono agitado da amiga. Angie havia sonhado muito, e sorrira, falara e choramingara, como se estivesse revendo cada cena de sua vida. Durante todo o tempo, havia segurado a mo de Lucy com fora espantosa, e resmungara nas poucas vezes em que ela tentara interromper o contato. Ao amanhecer, Angie acalmara-se e mergulhara num sono profundo. Sua respirao era pesada e difcil, mas finalmente soltara a mo de Lucy e conseguira acomodar-se numa posio mais confortvel, de costas e com as mos cruzadas sobre o peito.
Lucy aproveitou a gua morna do banho para aliviar a tenso dos msculos e voltar  vida. Afinal, hoje era um novo dia!
Sorrindo, examinou o contedo do guarda-roupas e escolheu um vestido alegre, de tecido leve e confortvel. Algodo para acariciar sua pele, amarelo para refletir sua felicidade. Sim, porque hoje ele diria alguma coisa! Ou ela diria alguma coisa... Um dos dois diria o que precisava ser dito para que pudessem realmente iniciar uma vida em comum.
Depois de vestir-se e pentear-se, Lucy voltou para o quarto de Angie. Ela ainda dormia, mas a respirao ofegante e pesada indicava que seu estado no havia melhorado.
 No h nada que eu possa fazer  o Dr. Harper disse ao telefone.  A sra. Moore j tem uma certa idade, e seu organismo est cansado, como uma mquina velha e desgastada. Se acha que precisa mesmo de ajuda, vou mandar uma equipe de paramdicos examin-la. Eles mesmos a traro para o hospital, caso seja necessrio.
Era o melhor que podia conseguir. Os mdicos j no atendiam s chamadas dos pacientes em suas casas. Se algum estava realmente doente, uma ambulncia ia apanh-lo e o levava para o hospital, onde aparelhos modernos e toda a alta tecnologia da medicina do sculo vinte eram utilizados para diagnosticar e curar as mais diversas patologias. E quando a conta chegava, o paciente morria fulminado por um ataque cardaco!
De qualquer forma, teria de contentar-se com a ambulncia e os paramdicos que logo estariam chegando para examinar Angie e decidir se deviam lev-la para o hospital.
Assim, Lucy moveu-se pela casa na ponta dos ps, tomando cuidado para no fazer barulho e indo ao quarto da sra. Moore de dez em dez minutos. Na cozinha, preparou o prprio caf e foi sabore-lo perto da janela, de onde podia ver os barcos no porto.
s oito em ponto Maude entrou na cozinha como um furaco e foi imediatamente silenciada por uma explicao rpida e clara. Depois de ir dar uma olhada atravs da porta do quarto de Angie, a menina voltou para a cozinha e sentou-se diante de Lucy.
	J tomou caf?
	No. Papai levantou e cedo e foi pra o banco. A sra. Winters telefonou dizendo que no viria trabalhar porque est doente. No, a sobrinha dela est doente. Ento papai sugeriu que eu viesse para c, e no pensei duas vezes. Afinal, o caf que voc faz  muito melhor que o dele.
	Posso imaginar  ela riu.  O que vai querer? Dois ovos, suco de laranja, leite...
	Caf.
	Desde quando seu pai permite que tome caf, especialmente  esta hora da manh?
	Ele no permite. Mas voc  muito mais compreensiva e generosa, e certamente vai me deixar ao menos experimentar.
Envolvida pelos elogios, Lucy preparou a refeio e serviu o caf numa pequena xcara de porcelana. Enquanto trabalhava, pensava no dia glorioso que teria pela frente. A Me Natureza proporcionava o cenrio perfeito, e s a aparente doena de Angie ofuscava o brilho do sol. Talvez estivesse apenas cansada. Haviam enfrentado um perodo agitado, e hoje descansariam e relaxariam. No final do dia, Angie certamente estaria bem melhor.
Toda vez que saa da cozinha, Lucy passava pelo quarto da sra. Moore para espi-la. E quando Jim Proctor entrou batendo a porta, as duas levantaram-se de um salto e levaram o dedo aos lbios para indicar que no devia fazer barulho.
	Que diabos...?  Seu rosto estava vermelho de raiva.  Preciso falar com voc, sita. Borden!
Era evidente que no estava disposto a falar baixo, e por isso Lucy o levou at a porta da frente, por onde saram.
	Angie ainda est dormindo  explicou.  Qual  o problema?
	Sabe muito bem qual  o problema! Os auditores passaram o final de semana todo examinando os documentos do banco, ou no conseguiriam cumprir o cronograma apertado que tm seguido
nos ltimos meses. Mais um banco de Taunton foi fechado na sexta-feira. Faliu depois de emprestar enormes quantias em troca de hipotecas de velhas propriedades. A mesma doena est afetando todas as instituies da Nova Inglaterra.
Lucy balanou a cabea, embora no houvesse entendido uma nica palavra do que ouvira.
	 como boa parte dos bancos da regio corre o risco de falir, os auditores federais decidiram verificar as condies de todos os emprstimos. Sabe o que encontraram em meu banco?
E Lucy, que no tinha a menor ideia, balanou a cabea, assustando-se ao sentir as mos que a agarravam pelos ombros e a sacudiam com violncia.
	No,  claro que no sabe o que encontraram! Um total de quarenta e dois mil dlares emprestados a Lucastra Borden, e praticamente sem garantias! De acordo com John Ledderman, a quantia foi liberada com base em expectativas favorveis. Pode me explicar que diabo significa isso?
	Quarenta e dois mil dlares?  ela espantou-se, livrando as mos que a sacudiam como se quisessem destrui-la.  No pensei que fosse tanto. Depois de algum tempo, achei que no valia a pena ficar contando.
	No diga! E para que precisava de tanto dinheiro?
	Para reformar minha casa,  evidente! O teto est cheio de buracos.
	Quarenta e dois mil dlares para reformar essa ratoeira velha?
	No fale assim!
	Assim como?
	Voc fica repetindo quarenta e dois mil dlares como se emprestar uma quantia elevada fosse imoral. E foi tudo perfeitamente legal, como pode atestar o sr. Ledderman. E por favor, pare de gritar comigo desse jeito, porque...
	Porque no tem mesmo a menor inteno de pagar esse emprstimo, no ?
	 claro que vou pagar. Na verdade, j tenho o valor da primeira parcela na gaveta da mquina de costura. O que pensa que sou, sr. Proctor? Uma ladra?
	Voc tem o dinheiro para a primeira parcela? E onde o conseguiu?
	Ah, foi fcil. Fui ao banco e pedi emprestado. No  para isso que os bancos servem?
	Voc voltou ao banco e pediu um novo emprstimo para pagar parte do primeiro? Que tipo de truque est planejando? 
	Escute aqui, se acha que fiz algo ilegal, v  polcia, registre uma queixa e pea para me prenderem. Como pode esperar que me case com voc amanh, se...
	Esquea! O casamento foi cancelado. Onde est minha filha?
	Na cozinha, comendo o caf da manh que preparei para Lucy respondeu, antes de apoiar-se na rvore para no ela cair.
Jim afastou-se sem sequer olhar para trs.
E pensar que chegara a acreditar num dia perfeito! Jim praticamente a acusara de ser desonesta e mentirosa, e no lhe dera nem mesmo o direito de defender-se!
 Mas no vai me fazer chorar. Mesmo que tudo tenha acabado, ainda tenho o orgulho dos Borden. No vou chorar. Ningum me faz chorar!
Afastando-se da rvore, conteve as lgrimas e voltou para dentro de casa. Maude havia desaparecido.
	Azar deles!  resmungou furiosa.
Um som no quarto de Angie a fez esquecer os prprios problemas para socorrer a doente.
	Bom dia  a sra. Moore cumprimentou com olhos brilhantes, apesar da palidez intensa.  Acho que dormi demais.
	So s nove da manh, e voc precisava descansar. Vou ajud-la a levantar-se para tomar seu caf. Fiquei preocupada com voc, sabe? Telefonei para o mdico, e ele vai mandar uma equipe de paramdicos para examin-la ainda hoje. Quer se levantar?
	Acho que no. Posso tomar meu caf.na cama?
	 claro que sim! O que vai querer?
Enquanto ouvia os pedidos de Angie, Lucy sentia a inquietao crescer. Era evidente que sua velha amiga tentava demonstrar uma fora que j no possua, e a lentido das respostas e movimentos indicava que algo deteriorava-se rapidamente em seu organismo.
	E ch  Angie concluiu.  Quando eu era menina, sempre tomvamos ch em nossa casa. Papai adorava ch. E vou querer torradas, tambm. Ou bolinhos? Por acaso tem alguns bolinhos prontos?
	No, mas posso prepar-los em um minuto. Quer tomar um banho antes do caf? Os paramdicos logo estaro aqui para examin-la.
	Boa ideia. Pode apanhar minha camisola nova na segunda gaveta da cmoda, por favor?
As duas horas seguintes foram de trabalho intenso, Quando os paramdicos chegaram, Angie estava preparada para receb-los.
A equipe era composta por dois rapazes e uma moa que identificou-se como enfermeira padro.
Mallory Small  ela apresentou-se.  Trabalho com o Doutor Harper. Podemos ver a paciente?
Depois de um exame detalhado e de uma tonelada de perguntas, os trs pediram licena e foram conversar na cozinha.
	Uma bela profisso  Angie comentou.  Devia ser enfermeira, Lucy.
	Enfermeira padro  ela corrigiu.  E quase to importante quanto ser mdico. Cheguei a pensar em ser enfermeira quando era crianas, mas um dia cortei o dedo e desmaiei ao ver o sangue.
	Desmaiou por causa de um corte bobo?
	Acho que...
	Com licena. Srta. Borden, pode vir aqui fora um instante?
	Aposto que essa jovem vai dar pssimas notcias - Angie comentou com um sorriso despreocupado.
	Deve ser a conta  Lucy brincou antes de sair.
Os dois rapazes estavam guardando os instrumentos, e a enfermeira comeou a falar assim que a viu entrar na sala.
	s vezes temos de ser brutais, srta. Borden. A paciente  uma pessoa prxima e querida, no?
	Sim, muito querida. Ela no tem parentes, e eu a trouxe para c depois que o asilo onde ela morava fechou.
	Bem, antes de vir para c, tive uma longa conversa com o Doutor Harper, e os exames confirmaram nossas suspeitas. Para ser bem clara, srta. Borden, no h nada que possamos fazer pela sra. Moore. Suas funes esto se esgotando gradualmente, entende? Existem alguns remdios que posso prescrever para proporcionar algum conforto  paciente, e tambm podemos lev-la ao hospital e tentar mant-la viva atravs de aparelhos e tratamentos sofisticados. Por outro lado, a viagem de ambulncia at l implica em riscos enormes.
	Quer dizer que...?  No ia chorar. No havia chorado por Jim, e no choraria por Angie. Seria forte por ela, e reservaria o pranto para... depois.  Est dizendo que ela pode morrer?
	A qualquer minuto. S queremos saber se  melhor deix-la aqui, cercada pelas coisas que ela ama, ou lev-la para o hospital e tentar algum gesto herico, apesar das possibilidades reduzidas.
	Quais so essas possibilidades, exatamente?
Uma chance em mil.
H algumas horas, julgara estar despertando para um dia de felicidade, e em poucas horas a mo do destino destrura suas esperanas.
	Angie sempre disse que no queria acabar numa cama de hospital, cercada por aparelhos. Deixe-a aqui.
	Uma soluo sensata. Se ela piorar, no hesite em chamar-nos novamente.
	No hesitarei.
	Tomei a liberdade de usar seu telefone para solicitar os remdios, e o farmacutico mandar algum traz-los dentro de alguns minutos.
 Obrigada, enfermeira. A equipe partiu e Lucy voltou para o quarto da doente.
	Ms notcias?  Angie quis saber.
	Bem, eles queriam lev-la para o hospital, mas...
	Mas no h nada mais a fazer, certo? Prefiro ficar aqui, cercada por minhas coisas. Pode me ajudar? Gostaria de me acomodar e dormir mais um pouco.
Lucy providenciou uma xcara de ch para acalm-la e sentou-se ao lado da cama.
	Lembra-se de...? No,  claro que no pode se lembrar  a sra. Moore sorriu enquanto saboreava a bebida.  Vov nos levou a Nova York para o final de semana. Seis netos. Ficamos hospedados no Ritz e visitamos todos os museus da cidade. Sentia-me to sofisticada! Depois...
A voz fraca foi desaparecendo lentamente at que, cansada, Angie adormeceu. Lucy mal teve tempo para tirar a xcara de suas mos trmulas. No havia mais nada a fazer seno velar...
Cerca de uma hora mais tarde, algum bateu na porta e Lucy foi atender. Era o sr. Henderson, o empreiteiro.
	Ouvi dizer que a sra. Moore no est muito bem, e pensei em interromper as obras por alguns dias para deix-la mais sossegada. O que acha?
	Uma excelente ideia, desde que no esquea de ns.
	No vou esquecer. Seus vizinhos esto se mudando?
	O qu?  ela espantou-se, aproximando-se da porta para observar o movimento na casa ao lado.
Havia um grande caminho estacionado na estrada, e alguns homens carregavam mveis para dentro dele. Estava acabado. Perdera a oportunidade de passar o resto da vida ao lado do homem que amava por causa de um truque idiota! Ganncia! Ambio!
	Lucy!
Lucastra Borden aproximou-se dos degraus inacabados da varanda para receber a criana que corria ao seu encontro.
	Oh, Lucy!  ela gemeu, atirando em seus braos.  Ele disse que voc no vai mais ser minha me!
	Infelizmente no, querida. Seu pai e eu discutimos e... o casamento foi cancelado.
Percebendo a seriedade do momento, o sr. Henderson partiu em silncio, sem sequer despedir-se.
	Brigaram por minha causa? Fiz algo errado?
	 claro que no, meu bem! Ainda amo voc, e gostaria muito de ser sua me. Mas seu pai prefere me matar a casar-se comigo.
	Mas eu quero que voc seja minha me!
No vou chorar. Nem por Maude, nem por Angie e nem por ele. Acima de tudo, no choraria por ele!
	Infelizmente seu pai mudou de ideia sobre o casamento, Maude. Ele  um bom homem, e seria capaz de tudo para faz-la feliz. Mas casar-se comigo no faz parte dessa lista, e temos de aceitar sua deciso. E agora, pare de chorar e volte para casa.
Seria terrvel se seu pai viesse busc-la aqui. Seja corajosa, ouviu bem? Algum dia nos encontraremos novamente e riremos de tudo isso.
	No quero ser corajosa, e jamais darei risada de toda essa tristeza. Meu pai e um ditador e... e...  e correu para sua casa, onde Jim Proctor a esperava com os braos abertos.
Incapaz de suportar a tortura de v-lo pela ltima vez, Lucy respirou fundo e entrou. Precisava ser forte por Angie, e no podia chorar. No ia chorar...

Capitulo IX

Lucy ajeitou-se na cadeira e massageou os pulsos. Passara a noite sentada ao lado da cama de Angie, segurando sua mo e ouvindo a velha amiga falar sobre sua juventude. Uma coisa a intrigava. Angie a inclura em cada acontecimento como se tambm os houvesse vivido, embora a maior parte das aes fosse parte de sua infncia e adolescncia.
	Lembra-se de Memphis, Lucy? Quando foi? Antes da Grande Guerra, em 1917? Tnhamos dezessete anos, e vov nos levou para ver o festival de jazz. No foi maravilhoso? E Peter tambm estava l.
	Peter? - Lucy perguntara.
	Um belo rapaz... Estvamos interessados um no outro.
	E o que aconteceu com ele?
	Peter foi para a Frana em 1918. No se lembra? Esteve em Chteau-Thierry e Argonne. Papai e eu fomos  Frana depois da Guerra para encontr-lo. Peter ainda est l, em Chteau-Thierry.
	Ele nunca retornou?
	Ele... est esperando por mim.
	Ser um belo reencontro, Angie.
	Sim, maravilhoso.
Olhando para o rosto plido e adormecido, Lucy lembrou quantas vezes a ouvira repetir essa palavra. Maravilhoso. E agora, aos noventa e trs anos, Angie vasculhava suas recordaes e encontrava Peter, que teria sido maravilhoso, mas encontrara o descanso eterno em solo francs. Angie sorria, como se seus sonhos fossem doces. Seus lbios estavam comeando a perder a cor e a respirao tornava-se mais ofegante.
Com muito esforo, Lucy conseguia conter as lgrimas que insistiam em brotar em seus olhos. Tinha de fazer alguma coisa!
	Espere um instante  a telefonista informou.  Eles j esto a caminho.
Lucy desligou o telefone e voltou para perto da doente. O medo e a culpa a dilaceravam. Se houvesse mandado Angie para o hospital, as coisas poderiam ter sido diferentes. Mais uma de suas decises desastrosas, Lucastra Borden!
	Por que est correndo tanto?  Angie sorriu ao v-la entrar.  Vai acabar gastando os sapatos.
	Eu estava falando ao telefone. Sabe como as pessoas gostam de incomodar as outras, no? E por nada.
	Nada  por nada, Lucy. Nessa vida, tudo tem um significado. Lamento muito, meu bem.
	Lamenta? Do que est falando?
	Vai se casar amanh, e eu no poderei estar presente. De qualquer forma, estou feliz por voc. Sempre a amei como se fosse minha filha, e  bom saber que agora Jimbo estar sempre a seu lado. Jimbo... onde ele est?
	Ele... foi cuidar dos negcios  mentiu. Angie perdera a noo do tempo. Julgava ser segunda-feira, quando, na verdade, era tera. J devia estar casada  esta hora, e no entanto...  Jim disse que voltar assim que puder.

	Um rapaz trabalhador e honesto. Ele ser um excelente marido, Lucastra.
	Tenho certeza que sim.
A distncia, uma sirene anunciava a aproximao da ambulncia. Preocupada, Lucy consultou o relgio de pulso e constatou que apenas quinze minutos haviam se passado desde que telefonara. Chegariam a tempo. Sabia que chegariam a tempo!
De repente Angie sorriu e conseguiu sentar-se na cama. Lucastra a segurou pelos ombros e amparou-a, estranhando o brilho intenso em seus olhos.
	Oh, Lucy! Lembra-se de quando ficamos na piscina do Ritz, ouvindo valsas e admirando as estrelas? Foi uma linda noite - e fechou os olhos, deitando-se novamente.
No vou chorar! No vou chorar!
O toque da campainha a fez correr at a porta. Os dois rapazes que a examinaram na primeira visita entraram correndo e iniciaram os procedimentos imediatamente. Mas s por alguns instantes. Os dois pararam subitamente e, resignados, comearam a guardar a guardar os instrumentos.
	Oh, No!  Lucy gritou, passando por eles e atirando-se sobre a cama.  Meu Deus, no!
	Sinto muito  o mais velho da dupla sussurrou.  Harry, telefone para o hospital e comunique que a paciente faleceu durante o atendimento. 
Tera-feira, dezoito de agosto. Devia estar se casando, mas permanecia sentada na varanda dos fundos da casa, olhando para a praia. No se casaria. Nem hoje, nem nunca mais. Angie no poderia partilhar da felicidade eterna que previra. E nem ela.
	No vou chorar!  censurou-se em voz alta, alisando o vestido preto.
As ondas iam e vinham em silncio, e nuvens cinzentas cobriam o cu at o horizonte. Tudo era triste, sombrio e silencioso. At as gaivotas respeitavam seu sofrimento.
Um homem entrou pela lateral da casa e avisou:
	Sou da funerria, senhorita. O servio religioso j vai comear.
O chamado da realidade a fez compreender que estava perdendo a noo do tempo. Deveria ter se casado na tera-feira anterior, no dia em que Angie a deixara para sempre. Uma semana, e ainda no conseguira superar aquela dor intensa e dilacerante.
	Estou pronta  disse, levantando-se para acompanh-lo at o automvel que a levaria  igreja onde seria celebrada a missa de stimo dia.
Encolhida no assento traseiro, continuou lutando contra as lgrimas que ameaavam romper as comportas do controle h uma semana. Todos esperavam que decidisse alguma coisa. Lucy, devemos fazer isso, ou aquilo? Esse tipo de funeral, ou aquele?
Esse anncio, ou aquele? E Lucastra Borden no era capaz de decidir. A mente, normalmente aguada, mergulhara no vazio. Tudo o que sabia era que no devia chorar! Por enquanto conseguia controlar-se, mas quando pusesse os ps na igreja e todas aquelas pessoas a cercassem novamente pedindo decises... No devia chorar.
O automvel parou e o motorista a ajudou a descer. Havia algumas pessoas esperando na porta do templo, antigos amigos de Angie e vizinhos querendo oferecer solidariedade. Depois de cumpriment-los com acenos rpidos, Lucy dirigiu-se ao primeiro banco da igreja e sentou-se.
O organista tocava alguma coisa. O padre dizia alguma coisa. E Lucy encolhia-se no banco. No podia chorar, repetia para si mesma, sem saber por qu.
Algum sentou-se a seu lado e, registrando a presena, ela encolheu-se ainda mais. O recm-chegado aproximou-se e pousou a mo em seu brao, provocando uma espcie de descarga eltrica que a fez virar-se, assustada.
	Jim! Oh, meu Deus! E voc, Jim?  murmurou com tom incrdulo.
A cabea, sempre to independente, inclinou-se como se j no tivesse mais foras para sustentar-se sobre o pescoo. Um brao pousou sobre seus ombros e uma mo gentil, porm firme, a fez recostar-se num peito amplo e slido que lembrava segurana, proteo e aconchego.
	Chore, Lucy. Voc precisa desabafar.
Lucy respirou fundo para reunir foras... e chorou. Chorou uma torrente de dores e tristeza, todos os dias de sofrimento e todas as noites de infinitas preocupaes. Ainda estava chorando quando o padre encerrou a missa e todas as pessoas saram. E continuou chorando at sentir-se vazia de toda a aflio, at poder respirar e fundo e sentir-se novamente em paz com seu mundo. 
Quando Lucy acordou, havia barulho e confuso na casa, marteladas e risos que a faziam pensar numa invaso. Devagar, deixou-se invadir pelas lembranas e espreguiou. A figura na cadeira ao lado da cama tambm moveu-se, inclinando-se e tomando sua mo com delicadeza.
	O que aconteceu...?
	Plulas para dormirJim respondeu em voz baixa enquanto afagava sua mo.  O Dr. Harper receitou alguns tranquilizantes, e disse que deve torn-los por mais alguns dias. Voc estava  beira de um esgotamento, meu amor.
Meu amor?
Devagar, virou a cabea at conseguir enquadr-lo em seu campo de viso.
	Mas... voc foi embora.
	Temporariamente. No est me vendo aqui, Lucy?
	Sim. Um pouco fora de foco, mas posso v-lo.
	E tambm pode me ouvir, no ?
	Sim, com clareza absoluta.
	Otimo. Amo voc, Lucy Borden.
O que uma garota respondia numa situao como essa? Maravilhoso? Angie teria escolhido essa resposta. Por alguma razo, podia quase senti-la a seu lado, afagando seus cabelos e tentando anim-la. Pois bem, se havia funcionado com Angela Moore, por que no com Lucastra Borden?
	Isso  maravilhoso, Jim.
Ele riu, levantou-se e foi buscar alguma coisa sobre a cmoda. Quando voltou, levantou sua cabea e aproximou um copo de seus lbios.
	J falou demais, minha querida. Beba isso, e trate de dormir mais um pouco. Precisa descansar.
Obediente como uma criana, Lucy sorveu o contedo do copo, deitou-se e adormeceu imediatamente.
Quando acordou novamente, o sol havia desaparecido e a luz do abajur projetava sombras estranhas nas paredes. Agora a cadeira era ocupada por outra figura, uma menina cujas pernas ainda eram curtas demais para alcanar o cho.
	Maude?
	Lucy!  ela exclamou, saltando da cadeira e debruando-se sobre a cama.  Eles disseram que voc no conseguiria... Sabe quem sou eu?
	 claro que sei. Voc  Lucy Alguma Coisa, filha daquele  monstro cujo nome prefiro esquecer. No vai me dar um beijo?
	No sei... Disseram que no devo perturb-la.
	Amo voc, Maude Alguma Coisa.
	Pare de me chamar de Maude Alguma Coisa! Sabe muito bem que meu nome  Maude Proctor. E tambm amo voc, Lucy.
	Ento me d um beijo.
	Mas eles...
	Quem so eles? E como podem saber o que  melhor para mim? Vamos, me d um beijo!
Hesitante, Maude beijou-a no rosto e sentou-se ao lado dela na cama, tomando cuidado para no incomod-la.
	Acho que papai no vai gostar disso.
	E da? Estamos sozinhas aqui. E se ele insistir em me aborrecer com todas aquelas ordens, farei algo terrvel para dar uma bela lio naquele sujeito!
	Vai castig-lo?  Maude perguntou, sria como se estivessem planejando o assassinato do Papa.
	Sim, vou castig-lo. E sabe como? Vou me casar com ele e obrig-lo a me aturar at o fim de seus dias. Caramba, estou com fome!
A menina sorriu e beijou-a novamente antes de sair correndo e gritando.
	Papai! Papai!
	Quieta, Maude! No podemos perturbar Lucy.
	Ela est acordada. E disse que...
	O que ela disse, minha filha?
	Disse que eu podia beij-la, e eu a beijei. Avisei que voc no ia gostar nada disso, mas ela ameaou castig-lo obrigando-o a se casar com ela e... Papai?
Mas Jim j havia subido a escada aos saltos.
	O que quer aqui? Veio trazer algum presente de grego?  ela provocou, deliciando-se com o brilho intenso em seus olhos negros.
	No entendi.
Por que veio de mos vazias? Disse que estava com fome Ah, agora entendi. Vou buscar...
	No! Quero me levantar dessa cama e descer. Quero ver gente e ouvir vozes  e empurrou o cobertor, arrependendo-se imediatamente.  Parece que no estou vestida apropriadamente.
Pode pegar meu robe no armrio, por favor?
Jim sorriu com ar malicioso.
	Pensando bem,  melhor descer e pedir para Maude vir me ajudar.
	Desmancha prazeres.
	Jim Proctor!
	No precisa ficar nervosa. J estou indo.
Maude devia estar parada do outro lado da porta, porque entrou assim que o pai saiu. E Jim tambm no se afastou do quarto, pois voltou assim que a filha terminou de ajudar Lucy a vestir o robe e levantar-se.
	A escada  escorregadia  sorriu, oferecendo um brao. E depois de todo esse tempo deitada, acho que vai precisar de ajuda. Pensando bem...  e inclinou-se, erguendo-a nos braos e carregando-a at a cozinha, onde a fez sentar-se junto  mesa.
	Assim est melhor.

	Sim, melhor para mim, mas voc parece prestes a morrer de falta de ar  ela riu.
	O que esperava? Sou um pobre banqueiro sedentrio! Ou melhor, era um pobre banqueiro sedentrio.
	Voc... era?
	Exatamente.
	Quer dizer que no  mais?
	O mdico disse que deve tomar sopa pelos prximos dois dias. Como prefere seu caldo de carne?
	Bem longe. No gosto de sopa, Jim. Prefiro um bom bife com pur de batatas e salada.
	Vi tomar sopa! Por que gastar tanto dinheiro com um mdico, se no vai seguir suas ordens?
	Como estou falida e no vou pagar essa conta, no preciso seguir ordem nenhuma.  melhor telefonar para esse mdico e avisar que sou uma paciente inadimplente. Quem sabe ele desiste de me obrigar a tomar sopa? Voltando  questo do seu trabalho...
	Ei, o que est fazendo?  ela assustou-se, vendo-o aproximar-se com um brilho estranho nos olhos.
	Algum j disse que voc fala demais? Quero ver se encontro um boto para deslig-la  e estendeu as mos.
-Jim Proctor, no se atreva! Sua filha est conosco nesta casa e... e se insistir nesse tipo de comportamento, no me casarei com voc.
	Ah, uma ameaa? J sei como fazer voc quieta  e inclinou-se, beijando-a com paixo.  E ento?
	Ento... o qu?
	No vai protestar, gritar, espernear e me ameaar de morte?
	Est me confundindo com outra garota, Jim. Se espera que o ofenda depois desse beijo maravilhoso, esquea! Que tal outra amostra do que sabe fazer?
	Lucy, a sopa est esfriando  Maude avisou.
	 claro. Primeiro a obrigao, depois a diverso  ela suspirou.
Assim que terminou de tomar o caldo, Lucy suspirou e olhou para Maude com ar suplicante.
	O que foi?
	Estou pensando num jeito delicado de dizer que gostaria que fosse brincar l fora e me deixasse conversar com seu pai. Tem alguma ideia?
	Tenho. Diga apenas: Maude, caia fora daqui!
	Vamos ver se entendi. Maude, caia fora daqui!
	J estou indo  ela riu, saindo como um furaco.
	E agora somos ns, Jim Proctor.
	Est falando como um juiz prestes a dar sua sentena.
	Vamos falar srio, por favor. Tem de admitir que nos despedimos em circunstncias bastante... desagradveis. E de repente voc est aqui novamente, todo carinhoso e sorridente. Gostaria muito de saber que diabos aconteceu com o mundo enquanto eu me afogava em sofrimento e preocupaes.
	Pois no, Excelncia  Jim curvou-se numa reverncia.  Foi mais ou menos assim. Apesar de nunca ter me interessado por romances e histrias de amor, acabei me apaixonando por uma garota da vizinhana. J havia experimentado essa coisa que chamam de casamento, e a tentativa foi um completo desastre. Assim, era de se esperar que tivesse medo de tentar novamente.
	Um bom comeo. Vamos ao que realmente interessa, sim?
	Como j havia decidido me casar para garantir o bem estar de minha filha, e no para suprir minhas necessidades fsicas e afetivas, achei que minha cunhada seria perfeita para o papel de sra. Proctor. E foi por esse mesmo motivo que acabei me aproximando de Lucastra Borden e pedindo essa encantadora jovem em casamento.
	Por sua filha,  claro.
	Por minha filha,  claro. Mas ento comecei a perceber que podia conciliar as duas coisas; garantir o bem estar de Maude e ser feliz, tambm.
	Entendo. Leve dois e pague um.
	No exatamente, porque logo descobri que estava apaixonado. Paixo  o que pode acontecer de pior na vida de um banqueiro, sabe?
	Ah, o banco! Sabia que o vilo acabaria aparecendo em alguma parte da histria. Prossiga.
	Achei que devia esconder esse sentimento sob uma capa de agressividade, entende?
	No, mas percebi a agressividade. E j que tocou no assunto, odeio gritos. E odeio homens dominadores.
	Ser que podemos ir para a sala?  ele sugeriu, evidentemente embaraado.  Acho que o sof  mais confortvel.
	Como quiser, desde que termine essa explicao de uma vez por todas.
Na sala, sentaram-se lado a lado no sof e Jim comeou a tamborilar com os dedos sobre uma das pernas.
	No precisa ficar nervoso  Lucy sorriu, segurando a mo dele e colocando-a sobre a perna para acarici-la.
	Por que est fazendo isso?  ele espantou-se.

	Porque eu quero. Posso fazer o que bem entender  e levou a mo dele ao seio.  Onde estvamos? Ah, sim! Voc me pediu em casamento pelo bem de sua filha.
	Estpido, no? Mas foi a nica ideia que me ocorreu naquele momento. Faria qualquer coisa para t-la a meu lado, e agora... Vai se casar comigo, no vai?
	Eu... ainda no decidi. Afinal, o que aconteceu nos ltimos dias para mudar seu estilo de vida?
	Algum anunciou a morte de Angie no Boston Globe. No imagina como um homem  capaz de arrumar as malas depressa.
	Est andando em crculos, sr. Proctor. Quero saber...
	Sei o que quer saber, mas preciso fazer algo mais urgente antes de responder  e beijou-a.
Foi um beijo ardente, intenso, mas breve. Teria sido mais longo, se algum no houvesse batido na porta da cozinha e entrado sem esperar por um convite.
	Ah... Ol, sr. Henderson  Lucy cumprimentou ao v-lo na sala.
	Ol, srta. Borden. Ouvi dizer que andou enfrentando alguns problemas, e decidi vir perguntar se quer que eu recomece as obras na varanda dos fundos. Afinal, aquela escada caindo aos pedaos pode representar mais um problema, uma vez que algum pode cair e...
	Sim, sr. Henderson, precisamos dos degraus  ela o interrompeu.  O mais depressa possvel. E quanto quele cheque que lhe dei...
	Depositei no mesmo dia. Trabalho nesse ramo h vinte e oito anos, e j aprendi que no se deve iniciar uma obra antes de saber se o cheque tem fundos. Como diz o velho provrbio, a confiana  a alma do negcio... especialmente quando o pagamento  adiantado.
	Muito engraado  Jim interferiu.  Pode comear o trabalho imediatamente?
	Nesse minuto  ele riu.  Afinal, j recebi pelo servio,
no? Sabe de uma coisa, srta. Borden? No acreditava que pudesse mesmo levantar todo esse dinheiro. Parece que seu amigo banqueiro caiu como um pato  e saiu sem esperar por uma resposta.
	, parece que sim  Jim resmungou com um sorriso enigmtico.
	Por favor, Jim, eu no queria...  Lucy gaguejou embaraada.  No incio, no tinha a inteno de tomar tanto dinheiro emprestado. Mas depois tudo ficou to fcil que... bem, no soube como recusar. Agora veio buscar seu dinheiro e depois ir embora novamente, no ?
	Sim e no. Onde estvamos?
	Pare com isso, Jim! No vai mais pr as mos em mim enquanto no explicar que diabos est acontecendo. Est furioso por eu ter feito emprstimos to altos em seu banco, e agora...
	No estou furioso.
	No? Ento...?
	No estou furioso porque passei a ltima semana em Boston, vendendo minhas aes.
	Quer dizer que est falido?
	No exatamente, mas acho que teremos de viver do seu salrio.
	Do meu salrio? Voc enlouqueceu, Jim? O salrio de uma professora substituta no  suficiente nem para as meias de Maude!
Por que vendeu sua parte no banco?
	Porque sabia que ele estaria sempre entre ns.
	Mas... Ei, espere um minuto. Se no  mais acionista majoritrio do banco, ento no preciso mais me preocupar com o emprstimo. No devo mais nada!
	Meu Deus! Com gente como voc espalhada pelo mundo, nenhum banco est livre da falncia.

	Jim, eu...
	E quanto ao emprstimo,  evidente que no tem de pagar mais nada. Em Massachusetts, um marido  responsvel pelas dvidas de sua esposa.
	Quer dizer que voc...?
	Pare de rir e arregalar os olhos, ou vai acabar enrugada. Sim, Lucastra Borden, eu paguei o emprstimo.
	Meu Deus! Se todas as esposas souberem disso, os homens...
	Permanecero solteiros, e acabaro falidos. Agora que j esclarecemos todas as suas dvidas... Onde estvamos, mesmo?
	Aqui  e beijou-o com paixo.
Nesse instante a porta da cozinha se abriu com um estrondo e Maude entrou correndo.
Mame! Papai! Encontrei a sra. Winters na praia e disse a ela que vocs vo se casar. Ela quis saber se precisam de uma governanta, e ento respondi que sim, talvez precisem, e ento ela... Mame? Por que est rindo?

CapituloX

No dia de seu casamento Lucastra descobriu que tinha muitos amigos. A igreja estava lotada, e muitas pessoas aguardavam a chegada do Cadillac que traria a futura sra. Proctor. At John Ledderman e sua recente esposa esperavam do lado de fora, sob o sol brilhante.
A noiva estava vestida de acordo com a tradio. O vestido de seda branca tinha saia longa e cauda do mesmo tecido, e o corpete justo, com gola de mandarim, havia sido bordado com pequenas prolas que refletiam a luz do sol. O anel de noivado brilhava em sua mo direita, meio escondido sob o enorme buque de orqudeas, e um vu delicado ocultava parte de seu rosto maquiado em tons suaves. A tiara que prendia o vu em sua cabea havia sido presente de Jim, e Lucy quase desmaiara ao ser informada de que no era simplesmente dourada, mas de puro ouro.
Faltavam quatro dias para o final de agosto, pensou, aceitando a ajuda do sr. Henderson para descer do cairo. Sete dias para o reinicio das aulas. Como conseguiriam viver com o dinheiro que ganhava?
Tentar discutir o assunto com Jim era intil.
	No se preocupe  ele sempre dizia.  Tudo vai dar certo.
E ria. Um homem irritante, esse Jim Proctor! Mas uma mulher determinada podia fazer alguma coisa por ele, e Lucy era essa garota!
	Cuidado com o degrau  Henderson avisou, orgulhoso em seu terno novo.  Fique calma, mocinha. Sei o que estou fazendo. J conduzi minhas quatro filhas ao altar, sem falar nas sobrinhas.
Sem outra alternativa, Lucastra respirou fundo e sorriu.
- Preparada?  Maude perguntou ansiosa, as mos firmes em torno da ala da cesta que continha as alianas.
	Preparada  a noiva respondeu confiante.
Em resposta ao sinal de Henderson, o padre acenou para o organista e as primeiras notas da marcha nupcial ecoaram pelo templo decorado com flores delicadas.
Aos ps do altar, Henderson levantou o vu da noiva, beijou seu rosto e afastou-se. Jim assumiu seu lugar e subiu os degraus ao lado da mulher que em breve seria sua esposa.
	Queridos noivos  o religioso comeou. Encantada com o brilho dos olhos de Proctor, Lucy no ouviu uma palavra do servio religioso. S voltou  realidade quando, com voz firme, o ministro perguntou:  Lucastra Borden, aceita esse homem como seu legtimo esposo, prometendo am-lo e respeit-lo por todos os dias de sua vida?
	Sim.
	Alexander James Proctor, aceita essa mulher como sua legtima esposa, prometendo am-la e respeit-la por todos os dias de sua vida?
Alexander? Onde havia ido parar o popular Jimbo?
	Sim.
	Nesse caso, eu os declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva, Jimbo!
Na porta da igreja, Maude aproximou-se do casal e cochichou:
	Agora?
	Agora  Jim instruiu.
Os dois entraram no carro e Lucy jogou o buque na direo da enteada, que agarrou-o com firmeza.
	Isso significa que serei a prxima a casar?  ela perguntou ao entrar no carro.
	 o que dizem. Mas no tenha pressa, filha. Sua me e eu precisamos de uma boa bab por perto.
	Hoje?
	No to depressa!  Lucy respondeu embaraada.  Seu pai quis dizer que algum dia podemos precisar de sua ajuda com o bebe. Algum dia. Talvez.
	Dentro de um ano, exatamente  ele corrigiu.
Francamente! Esse sujeito precisava mesmo de uma mulher que o obrigasse a comportar-se! Mas uma garota no devia impor-se no primeiro dia de sua vida de casada.
A recepo aconteceu na praia, entre as duas casas, e j era noite quando o ltimo convidado partiu e os Proctor puderam finalmente ficar sozinhos. Na varanda, Maude abriu a porta da casa enquanto Jim erguia a noiva para carreg-la atravs da soleira, conforme a tradio.
	Bem, agora que a festa acabou... Vou ligar a televiso para assistir um filme que...
	De jeito nenhum, Maude!  Lucy cortou.  No quero minha filha acordada at tarde na frente de um aparelho de tev. Alm do mais, seu pai e eu estamos cansados e loucos para ir para a cama.
	Mas...
	No discuta, mocinha. Se sua me diz que  hora de dormir,  hora de dormir.
Resignada, Maude despediu-se e foi para o quarto.
	Agora  nossa vez  Jim sorriu.
	O ltimo a chegar  a mulher do padre!  Lucy o desafiou, erguendo o vestido de noiva para subir a escada aos saltos.
Mais tarde, exaustos e nus, abraados e satisfeitos na enorme cama de casal, os dois ouviram uma delicada batida na porta.
	Ah, no  Jim gemeu.  Agora no!
	Maude?  voc, querida?
	No consigo dormir  a menina queixou-se, abrindo a porta do quarto sem pedir licena.
Rpida, Lucy puxou o lenol sobre o corpo enquanto o marido vestia a cala do pijama.
	Posso dormir com vocs, mame?
	Se disser que sim, juro que apertarei seu pescoo at ficar vivo!  Proctor sussurrou.
	Hoje no, meu bem. Estamos muito cansados, e essa cama  pequena demais para trs. Seu pai a levar de volta ao quarto e contar uma linda histria para ajud-la a pegar no sono. No , querido?
	Se acha que conseguiu se livrar de mim, est muito enganada. Voltarei mais depressa do que imagina.
	Espero que sim.
s seis da manh, quando Maude bateu na porta do quarto dos pais, encontrou-a trancada.
	No sei por que precisam dormir tanto  reclamou com a sra. Winter, que j havia preparado o caf.
	Os recm-casados so assim mesmo. Seja paciente, Maude. Logo eles estaro aqui.
Mas Jim e Lucy s desceram pouco depois do meio-dia. Usando trajes de banho, dirigiram-se  praia e pediram que a sra. Winters servisse uma refeio leve sob o guarda-sol colorido.
	Posso tomar caf, mame?
	S meia xcara.
	No comece a perverter as normas da casa, sra. Lucastra Proctor!
	Uma perverso de vez em quando no faz mal a ningum.
	Humph! Talvez esteja certa. E falando em normas e coisas parecidas, temos algumas coisas a discutir. A primeira delas diz respeito ao banco.
	Oh, no! No quero mais falar sobre isso!
	Prometo que esta ser a ltima vez. Quando soube sobre aquele maldito emprstimo, fiquei to furioso que tive vontade de mat-la. Por isso me afastei daqui, para poder pensar em tudo com um pouco de calma. Foi ento que compreendi que, para viver bem com voc, teria de desistir de ser um banqueiro. Vendi minhas aes e... bem, consegui algum dinheiro.
	Quanto?
	Digamos que faltam quinze dlares para sermos milionrios. Tambm decidi que dentro de algum tempo voltarei a estudar e serei um advogado. Depois da lua-de-mel,  claro. Ns trs faremos uma linda viagem.
	Ns trs?  Maude surpreendeu-se.  Vai me levar em sua lua-de-mel?
	 claro que sim. Voc  minha filha, no?
	Essas duas pobres mulheres podem ao menos saber para onde sero levadas?  Lucy perguntou com um sorriso radiante.
	Andei examinando o mapa e descobri que gostaria de conhecer dezenas de lugares. Assim, decidi que a melhor opo seria uma viagem de navio. Um cruzeiro ao redor do mundo.
	Uma viagem em tomo do mundo? Voc enlouqueceu, Jim? Como vamos pagar por essa aventura?
	No ouviu o que acabei de dizer? Faltam apenas quinze dlares para sermos milionrios.
	Otimo! Nesse caso, vou passar por um banco qualquer e pedir um emprstimo de quinze dlares.
	Ah, no vai no! Nunca mais vai pr os ps num banco sozinha! Alm do mais, est esquecendo o testamento de Angie.
	Aquele amontoado de papis velhos?
	A esmola da viva.
	Conhece essa histria, Jim?
	Est na Bblia, no? Uma viva pobre deu a ltima moeda que possua  igreja, como se estivesse ofertando a prpria vida a Deus. Angie tambm deixou sua esmola de viva, mas nesse caso a moeda vale um pouco mais do que na histria original.
Os funcionrios do banco terminaram de examinar toda aquela papelada e concluram que...
	Fale de uma vez, Jim!
- Voc herdou quatro milhes de dlares.
	Meu Deus! Como se no bastasse todo o amor e todas as lies que me deu enquanto era viva, Angie ainda me deixou uma fortuna! Sabe de uma coisa? Ela queria muito que eu me casasse com voc, Alexander.
	Eu tambm queria. Como v, no precisamos mais do seu salrio. Na verdade, j informei o diretor da escola sobre sua demisso. E nunca mais me chame de Alexander em pblico!
	S se prometer no interferir mais em meus assuntos. Quem disse que tinha o direito de falar com o diretor da escola sem me consultar?
	Sou seu marido, lembra-se?
	 claro que sim. Voc  minha filha, no?
	Essas duas pobres mulheres podem ao menos saber para onde sero levadas?  Lucy perguntou com um sorriso radiante.
	Andei examinando o mapa e descobri que gostaria de conhecer dezenas de lugares. Assim, decidi que a melhor opo seria uma viagem de navio. Um cruzeiro ao redor do mundo.
	Uma viagem em tomo do mundo? Voc enlouqueceu, Jim? Como vamos pagar por essa aventura?
	No ouviu o que acabei de dizer? Faltam apenas quinze dlares para sermos milionrios.
	Otimo! Nesse caso, vou passar por um banco qualquer e pedir um emprstimo de quinze dlares.
	Ah, no vai no! Nunca mais vai pr os ps num banco sozinha! Alm do mais, est esquecendo o testamento de Angie.
	Aquele amontoado de papis velhos?
	A esmola da viva.
	Conhece essa histria, Jim?
	Est na Bblia, no? Uma viva pobre deu a ltima moeda que possua  igreja, como se estivesse ofertando a prpria vida a Deus. Angie tambm deixou sua esmola de viva, mas nesse caso a moeda vale um pouco mais do que na histria original. Os funcionrios do banco terminaram de examinar toda aquela papelada e concluram que...
	Fale de uma vez, Jim!
- Voc herdou quatro milhes de dlares.
	Meu Deus! Como se no bastasse todo o amor e todas as lies que me deu enquanto era viva, Angie ainda me deixou uma fortuna! Sabe de uma coisa? Ela queria muito que eu me casasse com voc, Alexander.
	Eu tambm queria. Como v, no precisamos mais do seu salrio. Na verdade, j informei o diretor da escola sobre sua demisso. E nunca mais me chame de Alexander em pblico!
	S se prometer no interferir mais em meus assuntos. Quem disse que tinha o direito de falar com o diretor da escola sem me consultar?
	Sou seu marido, lembra-se?
	E da? Isso no quer dizer que...
	Ei, vocs dois! O que acham de darmos um mergulho? maude interferiu.
	No, obrigada  Lucy respondeu.  Seu pai e eu temos algumas coisas a esclarecer, e depois iremos descansar em nosso quarto. Fique com a sra. Winters, est bem? Desceremos para o jantar.
	No entendo  Maude reclamou no dia seguinte.  Vocs dois passaram a tarde de ontem dormindo, dormiram e noite inteira e ainda esto cansados! Acho que eles precisam de vitaminas, sra. Winters.
	Tem razo  a governanta riu.  J foi buscar a urna, sr. Proctor?

	Sim, e o hidroavio est esperando por ns no porto. Venha conosco, Maude  e levantou-se, segurando a mo da esposa.
	Para onde?
	Vamos dar um passeio de hidroavio e dizer adeus a Angie.
	Mas Angie... ela j se foi, papai!
	Sim, mas estar l para despedir-se de ns. E depois, estar sempre por perto, como um anjo velando por nossa felicidade.
Sobrevoaram o porto por cerca de quinze minutos, at que Jim abriu a urna e despejou as cinzas de Angela Moore sobre as guas do mar. No banco traseiro do avio, Lucy e Maude assistiam a tudo emocionadas.
	Adeus, Angie  Lucastra sussurrou.  Descanse em paz  e virou-se para Maude para oferecer a moral da histria. Sim, porque no mundo de Lucastra Proctor, toda histria tinha um significado.  Eu era um beb quando minha me morreu. Vov cuidou de mim durante anos, e quando ela se foi, Angie tornou-se minha segunda me. Acho que vou am-la para sempre.
	E eu?  Maude retrucou agitada.  Era pouco mais que um beb quando minha me morreu, e agora tenho uma segunda 
. E tambm vou am-la para sempre  e virou-se para a janela.  Adeus, Angie. Voltaremos a nos ver no cu.
 Tomara que esteja certa  Lucy comentou, enxugando uma lgrima de emoo.  Vamos embora, Jim. Hoje  o primeiro dia do resto de nossas vidas.

FIM



